GRUPO BASE Fonte: Revista Vivência – Edição 179 – Maio/Junho – 2.019

MEU GRUPO, MINHA VIDA

 

Como o Grupo-base, ao mudar para melhor, transforma a recuperação de seus membros, suas relações com a comunidade e com a estrutura de serviço, ampliando a percepção da verdadeira dimensão da Irmandade.

 

Ingressei em A.A., no grupo ao qual pertenço até hoje, por pura necessidade física. Como todo doente alcoólico, eu precisava parar de beber. Assumi o Primeiro Passo e estabilizei-me; mas fiquei muito tempo planando na programação, Frequentava reuniões apenas para ouvir os depoimentos, agradecia e ia viver minha vida tranquila sem o álcool.

A nova vida, entretanto, trouxe-me um período de trabalho intenso, responsabilidades e viagens por vários lugares do estado. Durante esse período, frequentei reuniões nos grupos que encontrava nas cidades por onde trabalhava.

Quando finalmente retornei à minha cidade, vi meu grupo-base transformado. Muita coisa tinha mudado, inclusive, agora, o grupo era autossuficiente. Mudaram também as lideranças, o que influenciou a dinâmica das reuniões e alterou a própria percepção sobre o conjunto da irmandade. Eu senti, mas assumi a mudança.

Às vezes, recordava meus primeiros momentos no grupo, quando ficava calado nas reuniões. Nossa antiga sala funcionava num anexo da igreja, e, uma vez, o padre, numa festividade religiosa, chamou todo o grupo para cima do altar, para agradecer e enaltecer nosso trabalho. Uma situação inusitada, sobre a qual eu e meus companheiros não tínhamos nenhum controle, nem ideia se aquilo rompia ou não alguma tradição. Naquela época, poucos nos dispúnhamos a conhecer e entender a literatura de A.A.

Essa lembrança soava agora muito distante, principalmente no momento em que voltava ao grupo e encontrava-o autônomo, ligado à estrutura de serviço da irmandade e arejado de literatura. Nosso grupo também já não estava sozinho na cidade – havia agora outros cinco grupos. Alguns eram fruto do trabalho de levar a mensagem, outros surgiram por desentendimentos entre membros; mas, de forma geral, pode-se dizer que meu grupo-base foi o difusor da Irmandade na região.

Além da autossuficiência, tínhamos agora uma sólida estrutura, voltada para o conhecimento e a prática de literatura, para a unidade com os órgãos de serviço e para o propósito de divulgar a mensagem – de forma organizada e regular.

Eu, que sempre participara dos serviços do grupo, resolvi arregaçar as mangas e trabalhar com mais afinco, doando-me àquela maravilhosa programação, dando de graça o que recebi de graça.

As mudanças no grupo fizeram-me me entender que o álcool era só um detalhe. Aprofundando-nos na literatura – hoje, faço todos os dias a reflexão diária e carrego os Doze Passos no porta-luvas do carro – eu e meus companheiros começamos a perceber que a programação oferecia muito mais às nossas vidas que o simples parar de beber.

Passamos a fazer as chamadas reuniões californianas – em formato circular e baseadas na literatura – nas quais incentivamos toda semana um membro a fazer uma breve temática antes das experiências. Isso tem nos ajudado não só a compartilhar melhor, mas também a crescer dentro do programa de A.A. e a perceber a grandiosidade da nossa irmandade.

Nosso grupo, sempre muito coeso, participa não só de eventos locais e regionais, mas também daqueles nacionais, como as convenções que se realizam a cada quatro anos. Adquirimos uma percepção mais profunda do que é a nossa irmandade e descobrimos que participar da estrutura não é só com contribuição financeira, mas sim com a atuação efetiva de representantes no distrito, nos ciclos de estudos, além de abertura e disposição para as mensagens e chamados que vêm da área ou da JUNAAB. Discutimos sempre aquilo que podemos aprender – não só aprender, mas, principalmente, contribuir para que essa grande teia de amor altruísta não se desfaça.

Hoje, passados 42 anos de existência do nosso grupo, olho no retrovisor vejo o quanto cresci e ainda tenho a crescer, junto com meus companheiros, no entendimento da programação de A.A. Num grupo que se envolve com a comunidade, com a estrutura da irmandade, com o estudo de nossa literatura, tenho certeza de que estamos no caminho para sermos “uma sociedade de homens e mulheres em ação”.

J., Itabirito, MG

 

 

Fonte: Revista Vivência – Edição 179 – Maio / Junho – 2019 – Paginas: 26 – 27

 

 

À SOMBRA DO JUAZEIRO

 

A semente de A.A. faz brotar um grupo autossuficiente no sertão nordestino, seguidor das Doze Tradições, praticante da unidade, assinante da Vivência e participante da estrutura de serviço – imbuído de um único propósito: Passar adiante a mensagem.

 

Por mais demorada que seja a seca no sertão, o juazeiro continua sempre verde e dando frutos. Há pouco mais de três anos, num domingo de manhã, no sítio Freires, embaixo de um frondoso juazeiro, agentes comunitários de saúde do posto local arranjaram cadeiras para que fizéssemos uma reunião de informação ao público, divulgando a importância de um grupo de Alcoólicos Anônimos para aquele que sofre da doença alcoolismo.

Assim, o Comitê Trabalhando com os Outros – CTO do nosso distrito realizou mais uma reunião informativa, com mais de vinte pessoas ouvindo atentamente companheiros que se alternavam nas falas, mostrando os princípios de A.A., como a doença desenvolve-se, suas peculiaridades e características sutis, além de como podemos superá-la e mudar nossas vidas.

Com grande felicidade, naquela atividade, contamos com representantes de todos os grupos do Distrito, membros coordenadores de CTOs e demais companheiros interessados em levar a mensagem de A.A.

À sombra protetora e gostosa do juazeiro, tais possibilidades foram sendo apresentadas aos poucos pelos companheiros que, de forma simples, procuravam, da melhor maneira possível, sensibilizar as pessoas para a importância da nossa programação na recuperação do doente alcoólico. Somente dois dos nossos companheiros fizeram depoimentos um pouco mais pesados – o famoso cachaçal -, mostrando, ao final, como tiveram suas vidas melhoradas depois do ingresso na irmandade.

Quase no fim da reunião, apeou de um cavalo e achegou-se ao grupo um senhor já de idade, vaqueiro de profissão, vindo direto da pega de boi. Aproximou-se, visivelmente alcoolizado, sentou-se e ouviu calado o restante da fala final.

Terminado o encontro, fomos todos saborear a suculenta feijoada com galinhada caipira que haviam preparado como nosso almoço. Em seguida, retornamos aos nossos grupos com a boa sensação de que, pela linguagem do coração, tínhamos deixado a mensagem.

Dois meses depois, chegou uma caravana de quinze pessoas numa van, no início de uma reunião do grupo Viver Sóbrio, na cidade próxima ao sítio onde realizáramos aquela reunião sob o juazeiro. Empolgados, os visitantes relataram os desdobramentos daquele dia e disseram que queriam fazer parte da irmandade. O velho vaqueiro, que por último tinha chegado, foi o primeiro a declarar-se membro.

Foi uma reunião maravilhosa, partilhamos e sentimos que mais um grupo estava surgindo. Aquele velho vaqueiro tinha sido o mais incentivador para que se abrisse um grupo em sua comunidade. Isso foi feito na cidade de Santa Terezinha, local de moradia desses companheiros, a 34 quilômetros da nossa cidade. Assim nasceu o Grupo Voltando a Viver.

Hoje, passados três anos, tivemos a felicidade de participar de uma reunião de unidade, partilhando com os companheiros desse grupo. Foi emocionante recordamos juntos a ação que principiou o grupo. Na abertura da reunião, estávamos em seis companheiros; aos poucos, foram chegando outros, até que terminamos a atividade com doze companheiros da comunidade, mais dois de uma cidade vizinha onde não há grupo – ainda.

Terminada a reunião de depoimentos, pediram que falássemos sobre a Sétima Tradição. Munidos da literatura, lemos a parte da Sétima Tradição, discutimos, cada qual expressou ideias e opiniões sobre como melhor lidar com a estruturação, autossuficiência e autonomia no grupo-base.

Marcamos para o sábado seguinte, depois da reunião, breve discussão para traçar as próximas ações estratégicas do grupo após os três anos iniciais de boa vontade e força na transmissão da mensagem.

Foi agendada nova reunião pública informativa, para melhor explicar as atividades de A.A. e sua importância para comunidade. Seria uma reunião simples, dirigida às pessoas mais próximas, mostrando o funcionamento do grupo de A.A. na comunidade, em comemoração ao aniversário de três anos do Voltando a Viver. Com nova feijoada saborosa, receberemos a todos, incluindo os convidados dos grupos do distrito, membros da área e do setor.

Sim, foram três anos de luta e esperança. O grupo está se estruturando aos poucos, paga seu aluguel, mantém assinatura da Vivência e participa regularmente das reuniões do distrito aqui em São José do Egito (PE).

Estamos no sertão do Pajeú, a 400 quilômetros de Recife. Temos dificuldades: poucas condições econômicas, grandes distâncias geográficas, mas nada que nos impeça de levar a mensagem do Alcoólicos Anônimos com responsabilidade e gratidão.

Grupos do Distrito 20, Médio e Alto Pajeú, PE

 

 

Fonte: Revista Vivência – Edição 179 – Maio / Junho – 2019 – Páginas:  28 – 29 – 30

 

 

DISCUSSÃO EM GRUPO

 

“As recaídas podem ser decorrentes da rebeldia: alguns de nós são mais rebeldes que outros. Podem ser causadas pela ilusão de que o indivíduo pode ‘curar-se’ do alcoolismo. Também podem ser decorrentes do descuido e da complacência. (…) Alguns de nós sofrem de um grande sentimento de culpa, por causa de defeitos ou hábitos que não podem ou não querem evitar. Não conseguir perdoar-se e pouca oração também são uma combinação que provoca recaídas.

Também existem alguns de nós que foram mais prejudicados pelo álcool que outros. E há os que ainda se deparam com uma série de calamidades e parecem não ter recursos espirituais para enfrentá-las. (…) E outros são mais sujeitos a cansaços, ansiedades e depressão.

Essas condições, muitas vezes, desempenham papel importante nas recaídas – às vezes, controlam totalmente a pessoa”.

O “recaído” precisa de compreensão – livro na Opinião de Bill, pág. 99

 

  1. Como podemos agir para tratar com mais compreensão os companheiros recaídos?
  2. Quais comportamentos expressam nossa rejeição – consciente ou inconsciente – aos recaídos? Como podemos evitar esses comportamentos?
  3. Na condição de servidores, o que podemos fazer para que o grupo seja mais acolhedor e compreensivo com os recaídos?
  4. Como podemos ajudar companheiros a identificarem as causas de suas recaídas e formas de superá-las?
  5. Que ações podemos fazer – como indivíduos ou grupo – para alertar os novatos sobre os perigos, sintomas e características das recaídas, permitindo-lhes evitar esses problemas?

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