DA DESESPERANÇA A um propósito de vida

Tânia Maria Siloto Mainente Linhares *

Uma AAmiga de longa data compartilha reflexões em torno do que acontece nas reuniões de grupo.

 

Fonte: Texto copilado da Revista Vivência Ano 34 – Número 1 – Jan/Fev/2019 – Edição 177 – Paginas: 49 – 50

 

Visite-nos em: http://www.revistavivencia.org.br

Refletindo sobre o que escrever para a Revista Vivência, voltei a percorrer minha caminhada de alguns anos na aprendizagem do tema dependência química na vida das pessoas, na prática clínica vivenciada junto aos que buscaram apoio, seja em grupos ou individualmente, nas parcerias junto aos grupos de A.A. e N.A. enfim, na própria experiência do contato com todo este universo complexo.

Na particular vivência destes mais de doze anos de prática clínica voltada ao contato com os atendidos, observo a importância dos grupos, a participação e o apoio mútuo, respeitando-se as diferenças, as histórias de vida, as fases de recuperação ou não de cada um; ainda, o direcionamento das orientações em cada encontro, as falas e depoimentos trazidos pelos participantes ou mesmo o silêncio participativo de alguns.

No exercício desta escrita, reflito que, coordenar grupos de pessoas que buscam, querem e se mobilizam para uma mudança de hábito – consequentemente e com o tempo, uma mudança de vida – sugere desenvolver um olhar sobre a essência de cada ser humano ali representado; um olhar sem discriminação sobre a doença, sem julgamento dos inúmeros prejuízos vividos. Também sobre os entraves na comunicação, sobretudo sobre os próprios conceitos ou preconceitos enquanto profissional de saúde; para que se forme um elo entre os diferentes saberes, compreensões; para que se consiga um real movimento em prol do processo de cuidados e comprometimento com a recuperação daquele que buscou apoio para si.

Escuta e empatia tornam-se ferramentas essenciais, somadas aos conteúdos de informação e orientação, pois de nada adiantaria ter trabalhado conteúdos se cada participante não fosse tocado, em seu coração, na compreensão dos significados rumo ao primeiro passo para uma mudança real.

Quantas e quantas vezes se percebe o movimento de morte e vida naqueles membros do grupo?! Na luta pela recuperação, por mais destrutivos ou sabotadores de si mesmos que pareçam, no íntimo de cada um há uma tímida esperança ou busca por aceitação, compreensão, ser ouvido; busca por afeto, acolhimento, amos; por pertencer a uma totalidade. Por vezes, isto é mais expresso em gestos do que em ideias, no tom da voz mais do que nas palavras, na sua subjetividade.

Este movimento de amor pela morte e amor pela vida transita através da busca por um caminho de liberdade, de identidade, claro que sempre influenciado pelo meio – social, cultural, familiar – no qual se desenvolve cada pessoa. Jean-Paul Sartre escreveu uma vez que o importante não é o que a história faz do homem, mas sim o que o homem é capaz de fazer com que a história tem feito dele.

O ser humano está sempre propenso a regredir e avançar, escolher o bem e o mal para si; quando há certo equilíbrio, ele é livre para escolher, desde que possa fazer uso da consciência e possa fazer um esforço. O dependente químico tende a desafiar essas forças de vida e morte. E, num coração endurecido já sem equilíbrio, a pessoa pode tornar-se inumana, mas nunca não humana.

Ao que parece, quando tocado em sua essência humana, naquela chama de luz que grita por vida, por sair do fundo do poço, só nesse instante o alcoólico, de fato, encontra forças para dar os passos de mudança, fortalecendo-se, conhecendo sua identidade, sua importância no mundo, seu compromisso perante o grupo, seu real valor enquanto ser humano em transformação, suas relações com os membros do grupo de apoio, amigos, familiares etc.

É neste processo de vir a ser que, a cada passo, encontra forças para conscientizar-se do quanto é merecedor de uma vida melhor, de seu valor enquanto ser humano. Só assim sua recuperação terá real êxito para sua saúde e vida. Como profissional da psicologia, ter a possibilidade de Sr agente facilitador desse processo é valioso e gratificante.

Costumo dizer, aos que chegam procurando ajuda junto ao grupo de apoio psicológico voltado à problemática do consumo abusivo de álcool e outras drogas, desenvolvido em serviço público de Saúde Mental, que é sempre uma honra poder acolher, conhecer as histórias das pessoas que chegam e participar desse processo de transformação que nos move a permanecer nesse trabalho tão rico de experiências e aprendizagens.

Deixo aqui meu especial agradecimento pela caminhada conjunto, parceira e sempre presente aos amigos do grupo A.A. que, sem saber, deram forças para eu persistir nesse trabalho, enfrentando desafios, dificuldades diversas e muito aprendizado.

Até breve. Obrigada.

 

*Psicóloga Clínica com Especialização em Dependência Química pela UNICAMP – Serra Negra, SP

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s