BREVE ANÁLISE MÉDICA DO PRIMEIRO PASSO

LUIZ TEIXEIRA – Médico

Uma  antiga sabedoria  oriental nos ensina  que uma grande caminhada   começa   sempre   com    um   primeiro    passo. Também   o   programa   dos   Doze  Passos   de   Alcoólicos Anônimos,  a exemplo  da sabedoria oriental,  sugere  que  o início de uma programação para parar de beber, seguida, ao longo  do  tempo,  de  uma  completa reformulação  de vida, também começa com o Primeiro Passo.
Textualmente, esse Primeiro Passo está assim escrito: “Admitimos que  éramos impotentes perante o álcool  –  que tínhamos perdido o domínio sobre nossas vidas”.
A sabedoria  que iluminou  os primeiros  membros  de A.A. a intuírem esse Primeiro Passo foi, nada mais nada menos, que suas próprias experiências pessoais,  na quase totalidade dos casos dolorosas,  tristes e eivadas de profundos sofrimentos, numa  guerra  absurda  e  sem quartel  que  eles travaram,  e perderam sempre, contra o alcoolismo.
Gostaria  de  chamar  a  atenção  para   o  fato  de  que  essa estratégia   de   reconhecer   a   impotencialidade  perante  o álcool  como  passo  inicial e,  sobretudo,  fundamental,  para começar  a luta  pessoal contra  o  alcoolismo  ocorreu aí por volta da  segunda metade  da década de 1930.  Até então,  o alcoolismo não era considerado como doença.  Somente em 1947  a  Organização  Mundial   de      Saúde  (OMS)  veio   a reconhecê-lo    “como    uma    doença   autodiagnosticável caracterizada por indisciplina mental ou alergia física aliada a uma obsessão mental com desordens emocionais”.
Observando-se     a   literatura   produzida     por   Alcoólicos Anônimos percebe-se  que  não  há  praticamente  diferença entre a concepção aceita,  em 1947,  pela OMS  e aquilo que os primeiros membros  de A.A.  escreveram  sobre o assunto.
Vale a pena  abrir um parêntese  para lembrar  que foram os êxitos    iniciais    alcançados    pela     terapia     grupal     de  Alcoólicos  Anônimos,  na  recuperação  de  alcoólicos,   que levaram a OMS  a compreender e aceitar o alcoolismo como doença e não apenas como um problema moral,  concepção predominante sobre o alcoolismo antes da existência de A.A.

Desde  aquela  remota época  de 1947  até hoje,  muita água correu debaixo da ponte.  Muitos alcoólicos  conseguiram  o controle de suas doenças  com a aplicação do programa dos Doze Passos  e muito  se aprendeu sobre  a doença alcoólica apenas  com  a  troca de experiências  e da  mútua ajuda  da terapia leiga de Alcoólicos Anônimos.
Como consequência disso,  muitos médicos e pesquisadores se interessaram  pelo assunto  e inúmeras  pesquisas têm-se realizado sobre a Síndrome da dependência ao álcool.
Das muitas  pesquisas realizadas  em  centros especializados, aquela  que,    sob  o  meu  ponto  de  vista,   merece   maior credibilidade  e  tem  mais  consistência   clínica  é  a  que  se refere ao  fato de  que o alcoolismo,  embora seja doença de conotação  biopsicossocial,  está  associada,  na  sua  grande maioria,  a  uma deficiência  quantitativa  e/ou  qualitativa de enzimas    (isoenzimas)    produzidas     naturalmente     pelo fígado.
Para  se  entender  melhor  essa  moderna  concepção  sobre alcoolismo,    é   necessário   esclarecer  aos  leigos  algumas informações sobre  o metabolismo  do álcool  no organismo humano.
No nosso fígado, que é o órgão responsável pela eliminação (metabolismo)  de quase todo o álcool ingerido,  ocorrem as seguintes etapas:
Álcool
grupo de enzimas
Aldeído acético
grupo de enzimas
Acetato
grupo de enzimas
água + gás carbônico + energia
Vale esclarecer  que o metabolismo  do álcool no organismo é  um  pouco  mais  complexo   e   apresenta   outras  etapas bioquímicas.   Porém,   o  esquema  simples  delineado  aqui preenche muito bem as necessidades didáticas deste artigo.
Ainda   esclarecendo  alguns  aspectos  do  metabolismo  do álcool,  percebe-se,  ao olhar o esquema metabólico,  que as etapas de  transformação progressiva  do álcool ingerido até ser eliminado  do  organismo  sob  as  formas  de  água,  gás carbônico   e energia  só  ocorrem  se houve  a  presença  de enzimas.   Essas   últimas   são  substâncias  produzidas  pelo organismo,    no  caso  em  questão  o  fígado,    e  que   são necessárias  e imprescindíveis   para promover  ou acelerar a reação química de transformação.
Pois bem,  essas  etapas  metabólicas do álcool  ocorrem em alcoólicos  e  não   alcoólicos   e   se   processam   de   forma dinâmica, isto é,  na medida em que a bebida ingerida chega ao  fígado  imediatamente  sobre  a  ação  de  um  grupo  de enzimas e  logo  vai  se  transformando  em  aldeído acético. Este último tão logo vai se formando,  imediatamente sofre a ação um  outro grupo  de enzima  que se  vai transformando paulatinamente.  Por fim,  esse  acetato  emergente  também sofre a ação  de outro  grupo de  enzimas que o degrada em água, gás carbônico e energia.
Estudos  meticulosos  e criteriosos  em centros  de pesquisas especializados   demonstram,   contudo,   que  os  alcoólicos, contingente   atual  correspondente   da 10%  da  população ocidental,          apresentavam          provavelmente          por condicionamento familiar  (informação genética familiar com grande  probabilidade)  uma  deficiência  naquele  grupo  de enzimas responsáveis pela transformação do aldeído acético a acetato. As  pesquisas  demonstraram  que  nos  alcoólicos essa  passagem  de aldeído acético  a acetato  ocorre  a uma velocidade que corresponde aproximadamente à metade do acontece  nos não alcoólicos.  Por  conta  disso, logicamente, acumula-se sempre uma certa quantidade de aldeído acético nos organismos  dos alcoólicos  (evidentemente quando eles estão  na  ativa).  Esse  aldeído acético,  que  por sinal  é uma substância altamente tóxica  e lesiva para as células e o meio orgânico   interno   ( ao  contrário  do  acetato   que   é  uma substancia       atóxica)        ao       atingir        uma        certa concentração    no    corpo    interage    com    determinados hormônios,     alguns    grupos     de     enzimas     e     certos neurotransmissores originando variadas reações bioquímicas e   produzindo   um   grupo   de   substâncias   denominadas isoquinolinas.       Essas      últimas     têm     uma     estrutura farmacológica muito  parecida com  a  dos  opiatos,  que são substâncias assemelhadas aos derivados do ópio.

 

Vale   lembrar   que   o   Ópio   provoca    dependência    em aproximadamente 100% das pessoas.
Das  informações  veiculadas  nesse  artigo  podemos  inferir algumas conclusões importantes:
1) O metabolismo do álcool no organismo do alcoólico é diferente daquele que se processa no do não alcoólico.
2) A causa  dessa diferença  reside no fato de que o alcoólico é   portador   de   deficiências   enzimáticas   no   fígado  que dificultam  a passagem  de  aldeído  acético  a  acetato  (essa deficiência ocorre em 10% da população ocidental).
3) A   presença   de   altas   taxas   de   aldeído    acético    no organismo do alcoólico  (na fase  ativa do alcoolismo),  entre outras    coisas,     desencadeia    uma    série    de     eventos metabólicos que culminam com a produção de isoquinolinas (substâncias  parecidas com os opiatos  e que têm uma ação farmacológica  assemelhada  ao  ópio).  Esse fato,  aliás,  não ocorre   no   não  alcoólico   porque   ele   não   tem   aquela deficiência enzimática à qual nos referimos acima.
4) A presença de isoquinolinas,  pelas características que elas apresentam, conforme já mencionamos,  torna a embriaguez do   alcoólico   diferente   da   do   não  alcoólico.   Isto  é,   a embriaguez  do  alcoólico  é   mais   agradável,    com  maior sensação    de   energia    e   melhora   do   seu   rendimento psicofisiológico, principalmente na fase inicial do alcoolismo. Por isso e  pelo fato das isoquinolinas  terem alguma  coisa a ver com  os opiatos,   há uma  forte  tendência  do  alcoólico repetir com  uma certa  progressão  o estado de embriaguez que,   com  o  passar  do  tempo,    o  leva  a  uma  completa dependência física do álcool.
Buscando-se   um   traço   de   união   entre    as    modernas pesquisas  bioquímicas  do  alcoolismo  e  o  Primeiro  Passo, conforme    foi    intuído   pelos    pioneiros    de    Alcoólicos Anônimos,  iremos  chegar,  fatalmente,  à  conclusão de que esses   pioneiros   estavam   absolutamente   certos  sobre  a impotencialidade   do  alcoólico  em  relação  ao  álcool.   Na verdade,   esses modernos  estudos sobre alcoolismo vieram demonstrar  que  essa  impotência  perante  o  álcool  não  é apenas  algo  subjetivo   ou   meramente   psicológico,   mas, sobretudo e,  além disso,  é impotência de natureza também orgânica e fisiológica.

 

Bibliografia

1 – Milan, James R. & Ketchan,

Ketherine, Alcoolismo – Os Mitos e a Realidade, S. Paulo, Nobel

2 – JAMB, Jornal da Associação Médica Brasileira, Outubro, 1990 – Alcoolismo Traz Índices Trágicos ao Brasil.

3 – Os Doze Passos, Claab, S. Paulo

4 – Alcoólicos Anônimos, Claab, S. Paulo

Vivência n° 14 – ANO DE 1990

Visite-nos em: http://www.revistavivencia.org.br

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