ALCOOLISMO

Durante séculos, o alcoolismo não foi considerado doença, mas sim fraqueza de caráter, falta de força de vontade e vício. O alcoólatra era aquele indivíduo morador de rua, sempre bêbado e cheio de apelidos pejorativos: pé de cana, pudim de cachaça, bêbado sujo. O doente era sempre depreciado e desmoralizado na sociedade – e ainda o é, em muitos casos.

 

Entende-se perfeitamente a dificuldade de aceitação do pobre doente alcoólico em sua procura de ajuda e tratamento. “Procurar ajuda por quê? Eu não sou alcoólatra. Bebo quando quero, tenho prazer nisso e paro quando quero!” Essa é atitude de um doente já com alcoolismo, que nega a sua doença e não tem noção das perdas e dificuldades causadas pelo seu modo de beber.

 

A transição de beber por querer e por precisar é muito sutil e de difícil reconhecimento. Como a doença é progressiva e lenta, por algum tempo, o modo de beber não interfere no comportamento e na saúde. Mudanças típicas de comportamento, como agressividade, depressão, falta aos compromissos, acidentes e traumas, problemas na família e no trabalho, passam depois a ocorrer com frequência.

 

Preconceitos e falta de entendimento mantiveram essa doença escondida atrás do vício, da doença mental e da falta de caráter. Apesar de frequente, 14% da população são dependentes do álcool. Muitos bebem e não tem problemas, o que facilita ao alcoólatra ficar escondido no meio de bebedores sociais, justificando e manipulando seu modo de beber.

 

Essa doença é sutil, traiçoeira e extremamente poderosa. A recuperação de um paciente é difícil, mas é possível. A doença não tem cura, mas pode ser estacionada. O Alcoólicos Anônimos (AA) existe no mundo inteiro desde 1935 e já provou ser o melhor lugar para parar de beber e, melhor ainda, não voltar a beber.

 

A Medicina está apenas engatinhando no uso e no conceito de recuperação espiritual, mas certamente o alcoolismo, assim como outras doenças, atinge e destrói a espiritualidade.

Está acontecendo uma evidente abertura para a discussão dessa doença, inclusive na mídia, na última década. Isso, certamente, vai permitir que mais pessoas procurem ajuda. Sabendo que a dependência química é uma doença, o desejo de procurar ajuda vai ser cada vez maior.

É muito difícil parar de beber sozinho. Este é um engano frequente e que faz muitos perderem tempo tentando parar por conta própria.

 

O sucesso não permitia pensar em mim e na família; ele era inebriante. E, para ajudar, me habituei a beber. No início, bebia moderadamente ou, como dizem, “socialmente”. Quando bebia, optava pelo período da noite e escolhia a bebida. No caso, as melhores, já que beber e ter bebidas importadas significava “status”. Geralmente, essas bebidas eram compradas de contrabandistas que as entregavam no hospital. Bebia com moderação e saboreava a bebida para relaxar o corpo do dia de trabalho e tensão.

 

Sem perceber, fui aumentando a frequência desse hábito. Cada vez, bebia mais. Enquanto ante só bebia nos fins de semana, passei a beber todos os dias. Sempre à noite. Não bebia no hospital, assim como não bebia no consultório. O amor pela profissão era ainda maior do que o desejo de beber. Mas o álcool, sem eu perceber, já fazia parte da minha vida. Sempre negando, fui aumentando progressivamente a frequência do hábito e a quantidade de bebida consumida. Tinha uma enorme tolerância ao álcool o que me permitia ficar “inteiro”. Precisava cada vez mais de álcool para sentir o mesmo “conforto anterior”.

 

O limite entre beber por querer e beber por precisar é sutil e sempre despercebido por quem bebe. Eu manipulava o modo de beber e escondia o quanto bebia. Depois de certo ponto, o aumento no consumo passa a ser rápido, provavelmente, quando a dependência química está totalmente estabelecida. Perdi para o álcool.

Foram anos de vergonha, medo, angústia e um sofrimento sem fim. Não me lembrava do que tinha feito na véspera, e as cobranças me atingiam, causando vergonha e medo. Medo da vida, medo do ontem, medo do hoje, medo do amanhã.

 

O limite entre beber por querer e beber por precisar é sutil e sempre despercebido por quem bebe. Eu manipulava o modo de beber e escondia o quanto bebia. Depois de certo ponto, o aumento no consumo passa a ser rápido, provavelmente, quando a dependência química está totalmente estabelecida. Perdi para o álcool.

Foram anos de vergonha, medo, angústia e um sofrimento sem fim. Não me lembrava do que tinha feito na véspera, e as cobranças me atingiam, causando vergonha e medo. Medo da vida, medo do ontem, medo do hoje, medo do amanhã.

 

Quando tinha 11 anos e experimentei uma dose pela primeira vez, achei uma experiência gostosa que me dava ânimo e fazia me sentir muito melhor. Deste dia em diante, sempre dava um jeito de conseguir algo para beber nas festinhas e, em casa, pegava escondido as bebidas do meu pai. Nunca pensei que isso fosse algo grave, apenas me fazia bem, eu me sentia fazendo parte e estava confortável em qualquer situação.

 

(Trecho copilado da Revista Vivência – Março-Abril/2013 – Edição 142 )

 

Nos momentos de lucidez e sobriedade, uma pergunta sempre me vinha à mente: por que entrei nesse mundo do álcool? A resposta que sempre me vinha à cabeça era porque o meu pai bebia, ele era um alcoólatra e assim eu tinha herdado a sua herança negativa, mas não queria ser igual a ele e por isso muitas vezes o critiquei, me julgando melhor, mais ponderado e eficiente perante o álcool. Pensava de uma forma ingênua que tinha o controle e poderia parar quando quisesse. Cheguei até a dizer que a bebida para mim era secundária, enquanto ela sorrateiramente ocupava um lugar de destaque na minha vida.

 

(Trecho copilado da Revista Vivência – Março-Abril/2013 – Edição 142)

 

A primeira dificuldade enfrentada pelo alcoólatra é a tendência de negar a doença. Negação essa que está diretamente relacionada aos preconceitos sobre o mecanismo real da doença. Ninguém bebe sem controle porque está triste, com medo ou mesmo feliz. Ninguém bebe sem controle porque ganhou na loteria, por falta de força de vontade, por ser mau-caráter ou por ser viciado.

 

O indivíduo bebe sem controle, sem conseguir parar, porque é alcoólatra. Ele está dependente do álcool para suportar a vida que ele mesmo construiu, apoiado no álcool.

 

A principal etapa do tratamento da doença do alcoolismo é ter consciência do fato de que se está bebendo acima do normal e desejar parar ou controlar o modo de beber. Esse é o primeiro passo para poder iniciar o tratamento: aceitar a impotência perante o álcool.

 

A negação inicial, típica do alcoólico, é a primeira barreira para a aceitação do tratamento. Mas a negação não se limita ao doente alcoólico. Os familiares também negam, assim como os médicos e a sociedade. Como tratar uma doença negada por todos?

 

Este é o principal desafio do tratamento desta doença, que consome e destrói pessoas, lares e causa problemas sociais crescentes. A doença é causada por um agente – o álcool – aceito e até mesmo venerado. Ele está sempre presente, nos mais diversos rituais religiosos, em xaropes e outros remédios, em toda comemoração de sucesso.

 

Sabe-se que o alcoolismo é uma doença física, psíquica e espiritual. É uma doença primária, e não secundária, como vinha sendo considerada e tratada. Somente em 1993, a Organização Mundial de Saúde reconheceu o alcoolismo como dependência química (OMS – CID.10 F10-2). Ele passou a ser visto e estudado como tal a partir de então.

 

O descontrole do modo de beber é seu principal sintoma. Como alcoolismo é uma doença progressiva e sempre precedida de um longo período de convívio prazeroso, leva tempo para o próprio doente ou terceiros admitirem que seu modo de beber já não é mais normal. Tem grande influência aqui o fato sempre lembrado de que todos bebem. Passa então a ser verdade quando o doente diz que todos seus amigos bebem.

 

Uma vez instalada a doença, fica praticamente impossível controlá-la apenas por iniciativa própria, uma outra peculiaridade do problema. Uma vez instalada a adição, a necessidade de beber passa ser uma solicitação do próprio organismo. Isso explica o beber pela manhã e a necessidade de beber para parar de tremer e desaparecer o sofrimento da falta de álcool. Isso é doença física, psíquica e espiritual.

 

Tomando um uisquinho à noite, para relaxar e descontrair. O alcoólatra se justifica: “Hoje trabalhei muito, mereço.” Bebia moderadamente. Mas o alcoolismo é uma doença de progressão lenta. Entre beber porque quer e porque precisa há um espaço muito grande de tempo. E há a negação. Dificilmente o alcoólatra admite que está bebendo demais. Passei anos bebendo sem controle e sem consciência dessa doença gravíssima, que mata mais do que o câncer e a Aids. O álcool é aceito pela sociedade, identificado à beleza e ao sucesso, mas há mais de 60 doenças secundárias associadas a ele.

 

Não beber fará do jovem um careta, porque o efeito do álcool sobre o cérebro, de imediato, causa euforia, desinibição e coragem, dando uma falsa ideia de liberdade. Inserido em seu grupo, o jovem necessita atuar com desembaraço e desinibição e o álcool é perfeito para criar estas condições. O convívio em turmas faz parte da iniciação do jovem. Nelas, eles têm hábitos semelhantes e fazem sempre as mesmas coisas, inclusive beber

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