Carta de um D.Q. em Recuperação!

Bom dia, companheiros!

 

Agora são 11h25min deste 27 de maio de 2012.

 

Domingão bonito! Dia bom para passear com a família, e é isso que pretendemos fazer logo mais.

 

Meu esposo segue limpo há 239 dias, ou seja, 7 meses e 26 dias! Sou muito grata a Deus por isso!

 

E o mais importante é que, só por hoje, ele está aqui, em casa, sereno, sóbrio, brincando com nossos pequenos, feliz, e realmente VIVO!

 

Recebi um e-mail da R.R., no dia 24, que postei como comentário no post De Repente 34, cujo finalzinho trazia um pedido: “Poly, escrevendo esse email veio uma idéia na minha cabeça, será que seu marido toparia escrever uma carta pro meu que está internado, talvez explicando como ele encontrou o caminho da recuperação?”

 

Falei com meu esposo, e hoje logo cedo ele se colocou a escrever.
Segue, abaixo, a carta na íntegra.

 

“Sou um adicto, meu nome é A., vivo, e limpo Só Por Hoje graças a DEUS, à minha Boa Vontade e à Programação Diária de Narcóticos Anônimos que me devolveu à vida e me mostrou que é possível encontrar uma nova maneira de viver sem drogas, e que a vida sem elas é muito, mas muito melhor do que eu jamais imaginava.

 

Primeiramente gostaria de agradecer a oportunidade de estar nesse momento levando essa mensagem de Força, Fé e Esperança para você! E poder partilhar o que deu certo e vem dando certo (o que é mais importante) nessa minha nova maneira de viver e apreciar a vida sem usar nada!!!

 

Tenho hoje 36 anos, venho de uma família estruturada e tive um lar organizado nos padrões “normais” da nossa Sociedade. Até meus 18 anos tive uma adolescência normal aos olhos dos meus pais, o que não era real, já que hoje tenho a plena certeza que a DOENÇA da adicção já estava em mim instalada mesmo antes da minha primeira dose! Eu era um turbilhão interno, um vulcão… Uma bomba relógio. Em razão de vários problemas na minha infância (que mantive e mantenho em segredo até hoje dos meus pais), me sentia esquisito, e como costumo falar, um E.T. vivendo nesse Planeta. Minha dificuldade de me relacionar com as pessoas, meu padrão isolado e até mesmo melancólico e depressivo, fazia com que eu quisesse ser qualquer um, menos eu mesmo. Com uma autoestima assim tão baixa, me aproximei de “amigos” que usavam álcool e outras drogas pra me sentir parte de alguma coisa, e também por acreditar na minha onipotência que aquela substância não iria afetar minha vida, ou seja, eu iria controlar.

 

Outra coisa é que, assim como foi comigo, não conheço até hoje nenhum adicto que tenha tomado sua primeira dose com um inimigo… Sempre foi com aquele(s) que se dizem amigo(s).

 

 Não comecei também consumindo grandes quantidades… Veja bem, essa é uma doença PROGRESSIVA! No começo era só nos finais de semana, depois duas vezes por semana, até que a vontade de usar não saía da minha cabeça.

 

Tive que passar à beira da morte diversas vezes nesses dezoito anos de adicção ativa, entre idas e vindas, e períodos de abstinência. Perdi muitas coisas, mas o que de mim mais foi tirado foi minha dignidade, autorrespeito e os valores que eu acreditava. Usava para reprimir sentimentos e por não saber quem eu era de verdade. Usava porque vivia em auto rejeição e no Triângulo da Auto-Obsessão (ressentimento – raiva – medo), Ressentimento do Passado, Raiva do Presente e Medo do Futuro… Verdadeiros VENENOS para um Adicto.

 

Eu posso dizer que tentei de tudo para sair das drogas (até porque eu pensava que meu problema era só as drogas). Tentei Psicologia, Psiquiatria, mudança de religião, mudança de relacionamento, fuga geográfica (fui parar do outro lado das Américas), e nada funcionou.

 

Um trecho da nossa Terceira Tradição é bem clara quando cita: ”Um Adicto que não queira parar de usar não vai parar de usar.Pode ser analisado,  aconselhado, persuadido, pode se rezar por ele, pode ser ameaçado, surrado ou trancado, mas não irá parar até que queira parar“ (texto básico, pg. 70). A chave é o desejo!

 

Vou aqui citar algumas coisas que me apontaram para um despertar espiritual. Uma foi quando li nos primeiros dias da minha internação algo que me deu uma fagulha de esperança: ”A doença da Adicção não é uma condição sem esperança, a Recuperação é possível!” Outra foi na partilha de um companheiro que disse: “Você pode ser quem você quiser ser, inclusive uma pessoa melhor e um membro produtivo da sociedade… Basta querer”. E outra, que essa doença me atinge de forma física,mental e espiritual e que A DOENÇA DA ADICÇAO É UM PODER MAIOR DO QUE EU!!!

 

Eu tive que sofrer a dor da retirada da droga, contemplar o meu momento de luto, todas as minhas revoltas e frustrações, e decidir “EU DECIDI” me render. Esse programa simples, espiritual e não religioso, onde tudo é sugerido (até porque se tivessem me forçado a alguma coisa, eu não teria voltado!), e que as coisas são meio ao contrário mesmo, onde só se segue se continuar voltando, onde vi que quando se chega no “fundo” é que se olha para cima, e só se vence um dia de cada vez quando se rende!!!

 

Trabalhei os passos até o quinto dentro da instituição, terminei meu tratamento e saí pela porta da frente, tenho hoje livre acesso a Instituição o que me dá uma segurança nos dias que não me sinto muito bem (se você que me lê é um adicto, sabe bem do que falo quando acordamos pela manhã e desde então já vemos tudo cinza e dizemos pra nós mesmos: Hoje o dia não está legal!).

 

Hoje vou às Reuniões quase todos os dias, sou servidor da Irmandade de Narcóticos Anônimos e também membro de Alcoólicos Anônimos. Hoje posso dizer duas coisas a você: A vida é inigualavelmente melhor sem usar nada e vivendo recuperação, e é possível deixar as drogas e encontrar uma nova maneira de viver.

 

Peço a DEUS que ilumine sua vida hoje. Estarei aqui através da nossa Oração da Serenidade, rogando que a dádiva da Recuperação seja algo concreto na sua vida hoje!

 

Lembre-se: A CHAVE É O QUERER!!!!

 

Só Por Hoje, continue voltando… FUNCIONA!”

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