O FUNCIONAMENTO DOS GRUPOS DE FAMILIARES DOS DEPENDENTES

Dr. Eduardo Mascarenhas

Não há família capaz de conviver com um dependente na ativa sem enlouquecer.
Impotente, desesperada, ela não sabe mais o que fazer. Ora perde as estribeiras e reage com grande impaciência e agressão. Ora se sente culpada e, complacente, corre atrás para desfazer as loucuras financeiras, profissionais e pessoais do bêbado ou drogado.
O dependente, por sua vez, ora se sentirá vítima da família e desamparado, ora se sentirá de costas quentes, vivendo uma perigosa impunidade, que só estimula a irresponsabilidade.
A família, sem o saber, torna-se fator de agravamento da compulsão.
Se o bêbado e o drogado enlouquecem a família, a família enlouquece-os também.
Tendo percebido isso, os Grupos Anônimos estimularam a criação de Grupos Anônimos constituídos pelos familiares dos dependentes do álcool ou das drogas.
Para suplementar a recuperação dos membros nos Alcoólicos Anônimos (A.A.) criaram-se os Al-Anon (outra maneira de abreviar Alcoólicos Anônimos); e para suplementar a recuperação dos Narcóticos Anônimos, foram instituídos os Naranon ( de novo, outra maneira de abreviar Narcóticos Anônimos).
Os Al-Anon foram a segunda modalidade de grupos anônimos a entrar em funcionamento. sua fundação data de 1947, seis anos, portanto, antes da fundação dos Narcóticos Anônimos (1953). De lá para cá, têm trazido o mais relevante auxílio ao alcoólatra e à sua família.
A história do NARANON no Brasil é também uma história peculiar quanto a dos Narcóticos Anônimos. os NARANON surgiram como desdobramento do Toxicômanos Anônimos e se chamavam TOX-ANON. Em 1990, depois de tão importantes serviços prestados à causa da recuperação dos toxicômanos no Brasil, em um ato de comovente humildade, renunciaram à sua designação e, tal como os Toxicômanos Anônimos, integraram-se aos movimentos internacionais. Os Toxicômanos Anônimos, como já disse, passaram a se chamar Narcóticos Anônimos e os TOXANON adotaram a designação de NARANON.
Nos AL-ANON e NARANON os amigos e familiares dos dependentes se reúnem para entender mais sobre a compulsão e saber enfrentar os problemas que ela acarreta.
A família que até então atrapalhava a recuperação, doravante não só não atrapalha mais, como ainda ajuda. E muito.
O dependente está agora protegido por todos os lados. Leu a literatura dos grupos anônimos e agora conhece o fundamental sobre a compulsão e seu enfrentamento. Encontra-se protegido intelectualmente. Não é mais um ingênuo e um incauto diante das astúcias de sua compulsão. Além disso está protegido emocionalmente pelos vínculos que estabeleceu com outros membros dos Grupos Anônimos. Fosse isso pouco, e, esteja onde estiver, esteja na ilha de Java ou no Japão, terá logo ali na esquina algum Grupo Anônimo ao qual recorrer. Gente de outra língua, é verdade, mas que fala a “sua” língua.
Para não esquecer um único dia os perigos de recaída, frequenta reuniões do seu grupo, ouve depoimentos de outros dependentes, está disponível para auxiliá-los. E agora, até nos filhos, nos empregados, encontra aliados, terapeutas leigos para auxiliá-lo a aprofundar sua sobriedade.
Os grupos familiares (AL-ANON e NARANON) funcionam à imagem e semelhança dos grupos anônimos, seguindo as mesmas regras de funcionamento e os mesmos princípios. Ao invés de “evitar a primeira dose”, seu lema é “evite a primeira briga”. Sábia advertência. Afinal, alguém já viu briga, bate-boca, insulto e discussão resolver alguma coisa? Agressividade apenas puxa agressividade. É essencial quebrar esse circuito vicioso que gera tanto desentendimento, que cava abismos entre as pessoas, num progressivo afastamento. Nas reuniões desses grupos, os familiares aprendem tudo sobre dependência do álcool ou de drogas e discutem com membros mais experientes como conviver com o dependente e como auxiliá-lo com respeito e competência, e não com desrespeito ou paternalismo. A família também deve evoluir psiquicamente através da prática dos Doze Passos. Apenas – é óbvio – O Primeiro Passo é transformado. Não se trata de admitir que se perdeu o controle sobre o álcool ou a droga. Trata-se de admitir que se perdeu o controle sobre o alcoólatra ou o drogado. E sobre si mesmo, no que respeita às reações.
Os grupos familiares de alcoólatras existem no Brasil há cerca de 20 anos e os toxicômanos apareceram nos anos 80. Sem eles, os grupos anônimos não teriam a eficácia que alcançaram.
Principalmente nos seus primeiros tempos de recuperação, os dependentes estão frágeis e necessitam de maior amparo familiar. E amparo não significa apenas boa vontade e paciência. Envolve também entendimento dos processos psicológicos da cabeça do dependente e dos complexos jogos afetivos que ocorrem no interior de um casal e de sua família.
Numa família ou num casal, acaba havendo uma distribuição de papéis, como numa peça de teatro: cada qual encarna um personagem e cumpre um papel, saiba ou não saiba, queira ou não queira. E, quando um dos personagens mais marcantes dessa peça – o alcoólatra ou o drogado – vai mudando, há um desequilíbrio geral na família. Hábitos, costumes, hierarquias e rotinas são abalados, e isso gera resistência, crise, confusão. Cada qual já estava acostumado até com o tipo de sofrimento que o atingia no dia-a-dia. Dispunha-se até de um bode expiatório, responsável por todos os males da família: o dependente.
Quando este começa a recuperar-se, os outros membros da família podem reagir – sem o saber – de forma negativa.
Suponhamos um alcoólatra, pai de família, de uns 50 anos, com filhos adolescentes e enfurnado no copo há vários anos. Sua irresponsabilidade, sua incapacidade de dar-se ao respeito ou de honrar compromissos há muito o destituíram da liderança da família. A esposa e os filhos assumiram o comando. E já se acostumaram a isso. Quando esse alcoólatra para de beber e reassume seu papel, é necessário um remanejamento na distribuição dos poderes. E – a gente sabe – poder “vicia” mais do que qualquer substância química. Embriaga a todos, sobe à cabeça e inebria. Resultado: crise.
Além disso, vem a gana da forra pelos anos de sofrimento e privação impostos pelo alcoolismo do pai e marido, cuja dívida familiar é enorme, impagável, podendo seus credores tornarem-se furiosos.
E o pior é que o alcoólatra nesses primeiros tempos de recuperação ainda está frágil, vulnerável. É quase como um adolescente ainda desesperado para enfrentar o mundo.
Muitas vezes a mulher do alcoólatra interpreta a compulsão do marido como uma rejeição, sinal de seu fracasso como mulher. E evidentemente, enxergando as coisas por esse ângulo, jamais terá serenidade para auxiliar o alcoólatra.

* Dr. Eduardo Mascarenhas ( Psicanalista )

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