OS 12 PASSOS

É mais fácil começar a falar sobre o que Doze Passos não sejam: não são regras, não são obrigações, não são uma lei e muito menos uma religião.

E a que se aplicam os Doze Passos? Para a superação de dependências e problemas emocionais em suas múltiplas formas. Quem necessitaria dos Doze Passos? Quem deles se aproximar. Talvez o adicto (ou a pessoa com outro problema qualquer) não busque ajuda, mas existem salas específicas para atender aqueles que convivem com pessoas com questões interiores conturbadas e que passam igualmente a necessitar de ajuda especializada após terem seus pensamentos e comportamentos influenciados (irei mais fundo, corrompidos mesmo) por convivências disfuncionais. E acredite, mudando-se, abre-se uma imensa janela de oportunidade para que os demais ao redor mudem também. Ou, ainda que no pior dos casos, aceite-se o que não se pode mudar com serenidade (o que em muitas situações já representaria um completa mudança de perspectiva e vida diária).

Doze Passos vou me atrever a definir, são como orientações: quem quer, adota-o; quem quer, pratica-o. Quem quer apenas quem quer. E porque se faz? Porque outras pessoas vêm até as mesmas reuniões em que estamos para dizer: eu fiz e vivo melhor assim desde então. Quem diz não está em uma página de revistas, nem faz parte de uma estatística no jornal e nem é uma personalidade no que quer que seja sendo entrevistada. Quem diz, está sentado próximo e quase sempre se torna em um conhecido ou amigo; alguém que se pode ouvir repetidas vezes, alguém que se pode observar diretamente seus progressos e alguém em que se passa a confiar por própria decisão. Nada é obrigado, nada é imposto; as pessoas seguem os Doze Passos porque observam resultados diretos em pessoas próximas e tão comuns assim como elas. E assim, decidem seguir com o programa.

Doze Passos são tão simples que em pouco tempo qualquer um memoriza suas premissas passando a estabelecer um modo pessoal de seguir suas etapas, pois, repetindo, nada é imposto. Alguns irão trabalhar um passo mês a mês, outros tentam adotar as fases simultaneamente, outros acompanham os passos conforme apresentado nas reuniões; enfim, fazendo como fizer o importante é que seja adequado a quem assim decidir adotá-lo.

Então, qual a finalidade de um manual para Doze Passos? Praticamente nenhuma. Na verdade, este trabalho se concretiza mais como um disseminador do trabalho existente em Salas de Doze Passos do que um manual a frequentadores propriamente, afinal , como diz a décima primeira tradição de Alcoólicos Anônimos, a célula-mãe dos demais grupos de mútua ajuda: “Nossa política de relações públicas é baseada na atração em vez de promoção”. Os Doze Passos organizam a programação das pessoas enquanto que as Doze Tradições organizam o funcionamento dos Grupos em termos de rotina nas Salas e política de prestação de serviço.

Leituras endossadas e reuniões orientadas pelas 12 diretrizes; é tudo o que há. Simples, gratuito e capaz de redirecionar vidas para novos destinos mais promissores, se assim se desejar.

Nos próximos capítulos, cada Passo será comentado de maneira independente para melhor esclarecer a proposta deste Programa de Recuperação de Dependências. Porém, reafirmo, são propostas laicas e leigas (não sou especialista em psicologia ou similares), e cada comentário ao longo destas páginas retratarão uma opinião pessoal assim como meus pensamentos a respeito do programa não estando vinculados a nenhum programa do grupo especificamente. A quase totalidade de propostas amalgamadas nos textos seguintes foram retiradas de livros e textos endossados e depoimentos em reuniões de 12 passos e sintetizados de uma forma original que vise expressar minha admiração e gratidão pessoal pela existência dos mesmos.

OS DOZE PASSOS DE ALCOÓLICOS ANÔNIMOS

 

  1. Admitimos que éramos impotentes perante o álcool* – que tínhamos perdido o domínio sobre nossas vidas.
  2. Viemos a acreditar que um Poder Superior a nós mesmos poderia devolver-nos à sanidade.
  3. Decidimos entregar nossa vontade e nossa vida aos cuidados de Deus, na forma em que O concebíamos.
  4. Fizemos minucioso e destemido inventário moral de nós mesmos.
  5. Admitimos perante Deus, perante nós mesmos e perante outro ser humano, a natureza exata de nossas falhas.
  6. Prontificamo-nos inteiramente a deixar que Deus removesse todos esses defeitos de caráter.
  7. Humildemente rogamos a Ele que nos livrasse de nossas imperfeições.
  8. Fizemos uma relação de todas as pessoas a quem tínhamos prejudicado e nos dispusemos a reparar os danos a elas causados.
  9. Fizemos reparações diretas dos danos causados a tais pessoas, sempre que possível, salvo quando fazê-las significasse prejudicá-las ou a outrem.
  10. Continuamos fazendo o inventário pessoal e quando estávamos errados, nós o admitíamos prontamente.
  11. Procuramos, através da prece e da meditação, melhorar nosso contato consciente com Deus, na forma em que O concebíamos, rogando apenas o conhecimento de Sua vontade e relação a nós, e forças para realizar essa vontade.
  12. Tendo experimentado um despertar espiritual, graças a estes Passos, procuramos transmitir esta mensagem aos alcoólicos e praticar estes princípios em todas as nossas atividades.

(Direitos autorais de The A.A. Grapevine, Inc)

***

* Cada irmandade adapta essa palavra para outro termo em foco de sua recuperação específica: relacionamentos (familiares, sexo-afetivos, em geral, etc), comida, nicotina, sexo, jogo, gastos, problemas emocionais (depressão, fobias, neuroses, pânico, etc), narcóticos…

1º PASSO

“1. Admitimos que éramos impotentes perante _______ – que tínhamos perdido o domínio sobre nossas vidas.”

Admitimos que o que viemos fazendo não nos conduziu à suposta felicidade.
Admitimos que o que viemos fazendo, feriu a nós mesmos e a outros ao nosso redor.
Admitimos que não sabemos fazer algo diferente para sair da situação em que nos colocamos.
Admitimos que na ânsia de acertar, falhamos.

Admitimos nossa impotência: não sabemos exatamente de que forma erramos.
Admitimos nossa impotência: não sabemos como parar o que permanecemos fazendo de errado. Admitimos nossa impotência: não sabemos frear o sofrimento diário.
Admitimos nossa impotência: não sabemos como reconduzir nossas vidas a um destino melhor.

Admitimos, o domínio sobre nossas próprias vidas havia se perdido.
Admitimos, o domínio sobre nossas próprias vidas se desfez por nossas próprias atitudes, conscientes e inconscientes.

Admitimos, precisamos obter algum tipo de ajuda para reorientar nossas vidas e assim nos tornamos dispostos a conhecer algo que possa nos curar física e emocionalmente.

Neste Passo admitimos honestamente que estamos sofrendo por consequência de nossas próprias decisões e atitudes e que queremos parar com nossa dor: admitimos que estamos (ou nos tornamos) dependentes de alguma coisa ou alguém.

Sugestão de Ferramenta de Recuperação:
Ir a pelo menos seis reuniões (pode ser em salas e bairros diferentes) para decidir se esta será a melhor solução para seu caso e passar a frequentar regularmente.

2º PASSO

“2. Viemos a acreditar que um Poder Superior a nós mesmos poderia devolver-nos à sanidade.”

Quem é esse Poder Superior? Para alguns será Deus. Para alguns será a Vida. Alguns decidirão à sua maneira. O importante será: admitimos que sofremos e decidimos acreditar que exista ajuda para frear a dor. Admitimos a impotência em resolver nossos assuntos à nossa maneira e escolhemos nossa própria fonte de ajuda, um Poder Superior.Admitimos a falta de domínio sobre nossas vidas e passamos a nos orientar segundo um Poder Superior para nos reconduzir à sanidade.

O grande problema é que ao mesmo tempo em que a dependência ou nossa instabilidade emocional se tornou um problema grave; foi através dela também que foi elaborado todo um cotidiano, pensamentos, convivências, lembranças, valores, associação de sentimentos, hábitos e comportamentos ao longo de todo o período em que se esteve envolvido com tais situações. Ao livra-se de tudo isso tudo o que a pessoa se defronta é com um absoluto e devastador vazio, em uma situação depressiva em que reina o pensamento “o que sobrou de minha vida?” Acreditaremos em Deus ou definharemos. Decidimos acreditar. Passamos a acreditar que um Poder Superior à nós (Deus, Vida…) nos auxiliará. Nossa sanidade dependerá desse voto de confiança.

Ninguém decidiu por nós buscar por uma ajuda; nós decidimos. Ninguém decidiu por nós a forma como esse Poder Superior entrará e nos guiará em nossas vidas, nós decidimos. Perdemos nossa sanidade, frequentemente, tomando sozinhos decisões que vemos reproduzidas diariamente em sociedade: família, amigos, conhecidos, pessoas nas ruas, personalidades na mídia e personagens em histórias de ficção. Para nos adequar a essas demandas sociais, desenvolvemos um ego e atitudes que nos proporcionaram uma personalidade específica entre a multidão. E esse binômio ego-personalidade (nossas manifestações ao mundo exterior) nem nos integrou à felicidade conforme o prometido devido às nossas próprias falhas e carências e nem sequer nos permitiu elaborar nossa felicidade pessoal pautada na especificidade de nosso caráter, de nosso Eu superior (nosso mundo interior).

Agora passa a ser diferente: buscamos sistematicamente por decisões de âmbito pessoal pautadas segundo reflexão de um Poder Superior à nós (seja Deus ou a Vida ou outra opção) ainda que destoe do que o “senso comum” pratique. Já sabemos até onde isso nos conduziu. Não queremos retornar até lá. Queremos nossa sanidade de volta (ou obtê-la pela primeira vez em nossas vidas) segundo a orientação de um Poder Superior que saiba o que realmente necessitamos individualmente para sermos realizados de fato.

Neste Passo escolhemos parar a nossa dor, de livre e espontânea vontade: abraçamos a esperança em poder mudar.

Sugestão de Ferramenta de Recuperação:
Iniciar a leitura de pelo menos um livro-texto de sua sala específica.

3º PASSO

“3. Decidimos entregar nossa vontade e nossa vida aos cuidados de Deus, na forma em que O concebíamos.”

Quando decidimos entregar nossa vida e nossa vontade aos cuidados de Deus (Poder Superior, Vida, outro), na forma em que O concebemos; não nos tornamos alheios aos rumos de nossas decisões pessoais como possa inicialmente parecer. Ao contrário, com a orientação Dele, assumimos o antigo domínio que havia se perdido em nossas vidas, porém em uma nova base: estamos sendo orientados a partir de uma fonte pré-definida por nós mesmo como mais esclarecida para decidir. Essa orientação, vinda de Deus (Poder Superior, Vida, outro) que acolhemos conscientemente, nos livrará das decisões errôneas de nosso ego-personalidade tomadas anteriormente em função de ideias do senso comum, obrigações sociais, comportamentos impulsivos, convenções familiares e outras formas de alienação de nosso Eu no mundo. Perdemos-nos seriamente ao tentar nos adequar para satisfazer sistemas doentios disfarçadamente rotulados por normalidade. Não mais cairemos nessa. Nosso Poder Superior, que apoiará nosso caráter, nosso Eu e nossos valores nos guiará. É dessa maneira, com decisões confiadas a um Poder Superior, que o controle de nossa vida e de nosso destino começa a retornar a nós mesmos.

Cuidar de nossa espiritualidade (bem-estar interior ou serenidade ou paz de espírito…) não exige que nos filiemos a uma religião. Se cremos em Deus ou se praticamos uma religião disciplinada ou displicentemente ou se somos ateus; isso não influenciará no sucesso que venha a obter nessa Programação. Podemos colocar a fé em nós, no Programa, em algum Poder Superior que venhamos a decidir e também em Deus.

Neste Passo, confiando em nosso Poder Superior, entregamos nossas decisões e pegamos de volta a direção de nossa vida.

Sugestão de Ferramenta de Recuperação:
Escolher um padrinho/madrinha dentro da sala que frequente para co-orientação junto ao seu Poder Superior. Não estaremos mais sozinh@s.

4º PASSO

“4. Fizemos minucioso e destemido inventário moral de nós mesmos.”

Ao longo da vida, de certas maneiras, somos sistematicamente “treinados” a observar os defeitos dos outros, culpar os outros por aquilo que não funcionou ou deu errado em nossas vidas, a discutir relacionamentos para que a outra pessoa entenda o nosso ponto de vista e por aí vai…

Nesse processo doentio (pois tudo o que costuma trazer são conflitos interpessoais e consequências emocionais) nossa atenção se torna praticamente adestrada a focalizar o outro, os outros, o mundo. Viramos especialistas em gerar “inventário morais” daqueles que conhecemos e até mesmo de quem não conhecemos, de pensamento em pensamento, de conversa em conversa. No entanto, nada surpreendentemente, a vida que perdeu domínio e sanidade não foi a dos outros, mas a nossa.

O quarto passo é um grande ponto de inflexão. Paramos de acusar aos outros e verificamos porque aceitamos determinadas condições. Paramos de culpar as pessoas e refletimos nossos próprios defeitos. Observamos nossas qualidades e nos perguntamos se as mesmas estavam encontrando real espaço de manifestação em nossas atitudes cotidianas. Entre outros questionamentos.

Voltamos no tempo e recuperamos mentalmente nossas lembranças de infância, as etapas de crescimento, os sucessos, os fracassos, as situações de amadurecimento (ou não), a adolescência, os episódios marcantes, as amizades e relacionamentos familiares, a forma como fomos tratados por nossos pais ou responsáveis, crenças sociais e familiares marcantes, nossas qualidades e pontos fortes, a circunstâncias, as paixões, os acidentes, o início da vida adulta, as conquistas, as perdas, as primeiras manifestações da dependência, consequências, padrões em relacionamentos afetivos, enfim, repassamos nossa vida a limpo. Nos perguntamos como nós mesmos contribuímos para o quadro atual de nossas vidas e substituímos o lastimável “por quê isso aconteceu comigo” por um assertivo “para quê isso aconteceu comigo”.

Se todo esse trabalho ficasse restrito à especulação da memória, nos perderíamos. Por isso escrevemos, colocamos no papel. No papel, de maneira fixada, aparecem os conflitos de declarações. O papel guarda o relato sem “esquecimentos” futuros. No papel, nos organizamos. No papel, nos revelamos e descobrimos como os outros, na verdade, tiveram menos impacto sobre os resultados de nossas vidas do que poderíamos supor.

Escrevemos, apagamos, reescrevemos, rasgamos a folha, escrevemos novamente, rasgamos outras folhas e retornamos a escrever. A escrita de um Quarto Passo não é uma redação escolar; mas um processo de autoconhecimento. Justamente, enquanto processo, pode levar horas ou ser feito ao longo de vários dias. Não há problema algum, descubra seu próprio jeito. Pode-se esboçar um desenho ou mesmo organizar as etapas da vida em forma de tabela ou gráfico se for mais fácil. Mas será preciso escrever também. O que importa será fazê-lo e fazê-lo bem-feito, fazê-lo com toda a humildade e consciência possível. Esta etapa tem por consequência rasgar camadas e mais camadas de negação e minimização acumuladas sobre nossas responsabilidades pessoais.

O Quarto Passo, sem dúvida, é algo doloroso e vexatório de se fazer. Faça sozinh@ e se permita chorar se acontecer. Mas encará-lo, entre todos os passos, será certamente o mais importante passo após a admissão do Primeiro Passo. Este será o início de um relacionamento mais honesto conosco. Descobriremos nossa capacidade ou incapacidade em receber e proporcionar afeto e amor genuíno assim como nossos medos de sucessos e de fracasso; sucessivamente. Descobriremos quase sempre que estamos longe de sermos terríveis ou maravilhosos. Somos apenas seres-humanos, pessoas, indivíduos.

No Quarto Passo, deslocamos o foco de nosso olhar para nós mesmos e não o tiramos de lá até nos conhecermos realmente. E abrimos o espaço emocional para libertar os outros para que sejam quem são independentemente de quem sejam. O respeito que passamos a ter por nossas dores podem começar a passar a ser compartilhados com os demais relacionamentos de nossas vidas. Buscamos a independência.

Neste Passo, colocamos a atual verdade de nossa história no papel para superar a negação e a vitimização passadas em prol de um futuro bom.

Sugestão de Ferramenta de Recuperação:
Caderno e caneta em um local tranquilo.

5º PASSO

“5. Admitimos perante Deus, perante nós mesmos e perante outro ser humano, a natureza exata de nossas falhas.”

O Quarto Passo é especialmente difícil por estarmos lidando às vezes pela primeira vez com questões íntimas desconfortáveis. Porém, o encaramos e o fizemos. Colocar a história de nossa vida junto com nossos erros e acertos nos proporcionou uma perspectiva ímpar a respeito de quem temos sido de fato ao longo do tempo. Porém, foi justamente atitudes de defesa desse Eu talvez sensível demais que elaborou um ego-personalidade que tomou decisões equivocadas.

Não estamos vivendo mais em função disso. Precisamos dar um fim a esta antiga maneira de viver. No Quinto Passo, lemos o Quarto Passo para nós mesmos. Queremos também que nosso Poder Superior nos guie sabendo quem realmente temos sido e quem de fato na verdade gostaríamos de ser: um novo Eu equilibrado e são. Lemos nosso Quarto Passo para outra pessoa (quase sempre o padrinho/madrinha ou líder espiritual ou um terapeuta*) como maneira de nos aceitarmos, com a segurança da confidência de quem se dispõe a ouvir. É um exercício de coragem e confiança que nos treina para a vida. É um exercício para evitarmos as dores e más decisões da solidão e sabermos sermos capazes de partilhar nossas vivências com pessoas adequadas.

Nossas vivências, aos poucos descobrimos, não foram um martírio isolado e nem mesmo algo vergonhoso a se esconder; mas apenas mais uma entre milhões de vidas expostas ao sucesso e fracasso diários, com picos de alegria e de dor ao longo de sua biografia. Ao aceitar a nossa história, encontramos conforto, reduzindo nossa dor. Ao partilhar nossa história com alguém de confiança, nos lembramos do valor inestimável de cultivar amizades.

Se considerar alguma passagem complicada demais em ser compartilhada, apague-a ou destrua. O importante é que tenha sido revista no contexto de seu inventário moral. Mais tarde, caso venha a se sentir mais à vontade, refaça seu Quarto Passo e compartilhe-o de maneira completa. Respeite-se até onde consegue chegar.

Descobrimos que muito do que é “normal” não funcionou para nós e aprendemos a nos desviar de situações-iscas (que nos “atacam” emocionalmente) e que funcionariam em nós como gatilho (em que elaboramos reações emocionais em resposta – normalmente péssimas!). Aprendemos a viver segundo nossas necessidades.

Neste Passo, exercemos a confissão, aprendemos a contar e a aceitar a nossa história, que se torna uma entre muitas em nosso íntimo.

Sugestão de Ferramenta de Recuperação:
Agenda com contatos telefônicos de outros companheiros de irmandade com quem se tenha afinidade.

*Observação: Poupe seus familiares, cônjuge, filhos, amizades e colegas de trabalho dessa etapa; eles não estão nas salas e podem não ter a compreensão necessária ao seu depoimento. Preserve-se de possíveis fofocas e preserve-os do que não foram preparados a vivenciar.

6º PASSO

“6. Prontificamo-nos inteiramente a deixar que Deus removesse todos esses defeitos de caráter.”

Admitimos que nossa vida estivesse indo de mal a pior. Aceitamos nos (re)orientar segundo um Poder Superior. Aceitamos (re)orientar nossas decisões cotidianas segundo esse Poder Superior. Escrevemos nosso inventário moral. Partilhamos nosso inventário moral junto a alguém de confiança. O que queremos? O domínio sobre nossas vidas. Nossa sanidade. Para isso, nos dispusemos a mudar e a trabalhar nesse sentido.

Descobrimos através do Quarto Passo que desenvolvemos alguns “defeitos de caráter”. Porém, os motivos que nos influenciaram a gerar esses defeitos de caráter talvez tenham origem em nossa infância, talvez estejam arraigados em nossas crenças e comportamentos há décadas. Talvez sejam até mesmo socialmente endossados em alguns ambientes. Não seria sensato considerar que bastaria a pura conscientização para que mudemos. Às vezes, até mesmo essa tomada de consciência pode levar um longo tempo para se estabelecer em nosso sistema de pensamento, substituindo antigas ideias por novas opções. Lembre-se, por mais que nossas decisões tenham nos levado a consequências indesejáveis, a maior parte do tempo, antes da entrada em Salas de Doze Passos, não fomos questionados sobre o âmago de nossas decisões. A maior parte das pessoas que nos rodeia, não age de maneira muito diversa do que costumávamos agir; e se não cuidarmos permaneceremos a ser influenciados por ideias fomentadoras de comportamentos dependentes. Mudar demora. Transcender é um exercício de renúncia e paciência. Entregue esta fase a seu Poder Superior e confie.

Neste Passo, compreendemos que necessitamos mudar de todo coração e nos prontificamos a isso.

Sugestão de Ferramenta de Recuperação:
Oração da Serenidade “Concedei-nos, Senhor, a Serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar, Coragem para modificar aquelas que podemos, e Sabedoria para distinguir umas das outras.”

7º PASSO

“7. Humildemente rogamos a Ele que nos livrasse de nossas imperfeições.”

De que maneira nos comunicamos com nosso Poder Superior? Quase sempre, por orações. Os leigos; por leitura, reflexão ou meditação. Mas agora, ao orar, não mais pedimos por um evento específico (algo que não podemos modificar), mas por clareza para que alcancemos nossos objetivos ou saibamos identificar novas oportunidades. Não pedimos que outras pessoas mudem (algo que não podemos modificar), mas que mudemos para nos realizar na vida assim como ela se apresenta para nós.

E assim, praticando o exercício da humildade em reconhecer nossas próprias imperfeições identificadas no Quarto Passo, conversamos com Deus ou conosco e pedimos: ajude-me a encontrar orientação para melhorar.

Talvez não saibamos ainda como redirecionar nossas vidas rumo à recuperação e a uma nova forma de viver (espiritual, material e socialmente), mas ao menos aprendemos a como não repetir situações das quais não nos beneficiaremos emocionalmente em longo prazo. Ouvimos as mensagens da vida, observamos a quem possui o temperamento, pensamento e comportamentos que nos falta e pouco a pouco vamos de fato aprendendo o que irá nos tornar mais saudáveis e melhores indivíduos.

Neste Passo, humildemente nos perguntamos “como aprenderemos a mudar?”

Sugestão de Ferramenta de Recuperação:
Manter a abstinência e observar.

8º PASSO

“8. Fizemos uma relação de todas as pessoas a quem tínhamos prejudicado e nos dispusemos a reparar os danos a elas causados.”

Este passo é praticamente autoexplicativo: enquanto sem perceber nos permitíamos dominar por variadas e às vezes dissimuladas formas de dependência, eventualmente fizemos outras pessoas sofrerem ou mesmo causamos danos físicos ou materiais. As soluções que elaboramos para eventualmente tornar suportáveis antigas dores, com o passar do tempo acabaram por se tornar ainda mais penosas que os problemas iniciais e essa situação ao fugir de nosso controle acabou por afetar a terceiros, quase sempre.

Essa etapa consiste apenas em fazer a lista. A quem prejudicamos? A nós mesmos? Aos nossos filhos? Aos nossos pais e a outros parentes? Aos nossos chefes e colegas de trabalho? Vizinhos e amigos? Cônjuges, namorad@s, casos, conhecidos eventuais? Desconhecidos? Faça a lista de com todas aquelas pessoas eventualmente impactadas por seus processos de dependência ou questões emocionais não resolvidas, ainda que você não possuísse consciência na época.

Assim, encaramos os fatos: talvez tenhamos sido “destruídos”, talvez tenhamos elaborado um processo de “autodestruição”, mas inebriados por nosso egocentrismo acabamos nós mesmos sem notar realizando algumas formas de mal no mundo. Logo, devemos reparação! Ao nos conscientizarmos do mal realizado por nós mesmos descobrimos que por detrás das vítimas indefesas havia “alguém”, um indivíduo. Isso também nos ajuda a romper com esse péssimo subterfúgio de responsabilidades (vitimização e minimização) e a nos encarar enquanto seres-humanos sujeitos a erros e acertos. E se erramos e gostaríamos de obter formas de perdão pelo que fizemos, simultaneamente, nos instrumentaliza ao ato de perdoar aqueles que talvez tenham nos ferido em alguma fase de nossas vidas.

Durante essa etapa nos aconselhamos com nosso Poder Superior, padrinho/madrinha, depoimentos em partilhas, literatura endossada quais as melhores maneiras em nos preparar para agir sem magoar aos outros e igualmente sem nos magoar.

Uma boa estratégia é a de gerar duas listas, sendo a primeira de pessoas a quem devemos perdoar. Observando nossos pensamentos e reações emocionais em cada pessoa da primeira lista acabamos compreendendo o que possa vir a influenciar às pessoas da segunda listagem a quem talvez busquemos a pedir perdão e suas possíveis reações. Assim, adequamos nossa abordagem caso a caso. Este será o início de um relacionamento mais próximo e honesto com aqueles a quem a vida aproximou de nós pelas mais variadas razões.

Neste passo, identificamos a quem prejudicamos em momentos de insanidade e buscamos reparação e perdão. Talvez também sejamos perdoados.

Sugestão de Ferramenta de Recuperação:

Perdão.

9º PASSO

“9. Fizemos reparações diretas dos danos causados a tais pessoas, sempre que possível, salvo quando fazê-las significasse prejudicá-las ou a outrem.”

Existem muitas maneiras de perdoar: perdoamos em nosso íntimo, procuramos a pessoa e declaramos nosso perdão, pedimos perdão por escrito em uma mensagem, fazemos reparações sobre algo que tenha sido estragado, enfim, faremos o que estiver ao nosso alcance prático e possibilidade emocional.

Às vezes, essas atitudes são impossíveis; pelo jeito de ser da outra pessoa ou total impossibilidade mesmo; devido a valores ou a pessoa não estar mais acessível.Caso necessite pedir ou obter perdão de alguém já falecido ou completamente inacessível uma sugestão é escrever uma carta sincera àquela pessoa, ler e queimar ao final encerrando a questão.

Ainda restará uma saída; sublimando sua reparação em alguma outra atitude: realizando um trabalho com pessoas com as mesmas características que aquela pessoa a quem você deveria reparação ou que sua criatividade permitir elaborar. Certa vez, em 2015, num ônibus no Rio de Janeiro, um desconhecido entregou várias moedas (de razoável valor, uns R$8,00) ao meu filho de 5 anos. Apenas entregou e foi embora. Acredito que aquele homem em algum momento havia roubado dinheiro de alguma criança e agora estava ali, “devolvendo-o”.

Neste passo, efetuamos reparações emocionais ou materiais dentro de nossas possibilidades, sendo a restituição em caminho para a reconciliação.

Sugestão de Ferramenta de Recuperação:
Disposição.

10º PASSO

“10. Continuamos fazendo o inventário pessoal e quando estávamos errados, nós o admitíamos prontamente.”

Fazer o Quarto Passo é um verdadeiro divisor de águas, porém, nossas vidas não pararam ali. Manter um diário de recuperação se torna uma preciosa ferramenta de autoanálise: mantém o foco em nós, ocupa parte de nosso tempo conosco mesmo, mantém nossas expectativas razoavelmente organizadas, nos permite verificar nossas próprias opiniões e “recados” pessoais, assim como também permite verificar nossos progressos e recaídas (percebemos aos poucos um passa a ser mais presente que o outro) enfim, colabora para a formação de um vínculo total ao nosso compromisso de superação.

Lembre-se, a recuperação é um processo que demanda tempo. Por exemplo, se alguém percebe que esteve envolvid@ em situações pessoalmente problemáticas entre seus 10 e 30 anos, como achar “tempo demais” estar em programação (envolvid@ com a recuperação) por dois anos? Foram hipoteticamente vinte anos aprendendo errado, desenvolvendo hábitos e comportamentos errados, convivendo com pessoas e situações erradas… Teriam sido depreendidos agora com os novos aprendizados apenas 10% do período proporcional ao antigo tempo envolvido com a velha forma de viver. Apenas (sim, apenas) dois anos para parar o que se fazia e obter novas diretrizes pessoais; “fazer o dever de casa”, no caso, reelaborando quase todas as áreas da vida. A programação de Doze Passos é perfeita para aqueles que de dedicam em atividades e tempo para ela. Ter a consciência de que os deslizes (recaídas) inevitavelmente acontecerão colabora para a perseverança e autoaceitação.

Neste Passo aceitamos os aspectos bons e ruins da fase de recuperação e focamos na realização de metas para alcançar objetivos e obter a superaração. A responsabilidade, em cada aspecto, é nossa.

Sugestão de Ferramenta de Recuperação:
Um diário (caderno ou agenda) de recuperação. Pensar em si mesmo como um “projetor” e a vida ao redor como a imagem de um filme. O que venho projetando para meu viver? Para minha recuperação, que novas “cenas” são minha responsabilidade preparar e emitir ao mundo?

11º PASSO

“11. Procuramos, através da prece e da meditação, melhorar nosso contato consciente com Deus, na forma em que O concebíamos, rogando apenas o conhecimento de Sua vontade e relação a nós, e forças para realizar essa vontade.”

Fizemos nosso inventário moral no Quarto Passo desde então sustentamos esse novo hábito em nossa rotina pelo Décimo Passo. No Segundo Passo assumimos uma nova atitude em adotar um Poder Superior (e mais sábio) em nossas orientações pessoais e no Terceiro Passo decidimos consciente e declaradamente que faremos dessa nova decisão um de nossos instrumentos de cura interior. O Décimo Primeiro Passo seria a adoção sistemática dos Segundo e Terceiro Passos ao longo de nossas vidas.

Para conversar com o Poder Superior – em quaisquer umas de suas formas adotadas – em uma prece necessariamente iremos organizar nossos pensamentos para este fim: o que nos atormenta? Com o que não estamos conseguindo lidar ou resolver? O que ainda não aprendemos? Do que precisamos nesse momento? O que podemos agradecer? Recebemos alguma surpresa boa e inesperada? Essa simples necessidade prévia já seria capaz de nos organizar em novas direções rumo a possíveis soluções ao que estiver nos causando perturbação. Mesmo quando repetimos uma oração já estabelecida pela força da tradição, estamos ativamente nos concentrando em sanar nossos problemas pois estaremos dedicando um tempo pessoal para focarmos nossa atenção às nossas necessidades durante o pronunciamento da reza em que acreditamos ser capaz de nos comunicar com nosso Poder Superior. Mesmo quem não realiza orações, através da disposição de tempo e ambiente para reflexão pessoal também conseguirá formular seus questionamentos interiores e buscar por suas próprias soluções. Tudo pode (e até mesmo deve) ser realmente simples e acessível, todos os recursos se tornam válidos e realmente práticos. Os resultados aparecem.

Porém, por vezes, estaremos tão perdidos em um verdadeiro “buraco negro” instalado sorrateiramente em nossa alma que nem ao mesmo seremos capazes de perceber de fato quais nossos problemas, em que áreas da vida esses problemas estão operando de fato, o quanto estamos sendo absorvidos por essas questões mal resolvidas. Os conselhos que ouvimos de pessoas supostamente bem melhor preparadas que nós parecerão puro disparate (devido à nossa própria incompreensão sobre a realidade se ainda não estamos hábeis em compreender isso) e não sabemos, quer dizer, realmente não podemos fazer nada quanto a esse quadro. O sentimento da impotência e do vazio interior passa a nos dominar. Nessa fase, encare que os problemas não são os outros (pelo menos não a princípio), foque apenas em você e evite movimentos drásticos: não peça demissão. Não tranque a faculdade. Não se mude. Não compre nada caro ou faça qualquer investimento. Não peça separação ou divórcio. Evite discutir com quem quer que seja. São certamente aconselhamentos “impossíveis de se seguir”, mas são os únicos coerentes com o fato de que o buraco negro é nosso, localizado dentro de nossas mentes insatisfeitas por alguma razão e que somos nós mesmos quem estamos descarregando nossa visão distorcida pela dor interior e ansiedade sobre os demais relacionamentos que nos cercam. Na impossibilidade de fazer o que quer que seja para solucionar o que quer que esteja ocorrendo, será essa nossa atitude: aceitar a realidade, não exaurir nossa (às vezes pouca) energia lutando contra questões que momentaneamente estão mais poderosas que qualquer uma de nossas forças. Esse será um exercício de compreensão e aceitação de nossa incapacidade temporária. Isso não significa ser derrotad@. Significa reconhecer que ainda necessita obter alguma nova sabedoria para conseguir vencer. Iremos nos recolher e literalmente iremos meditar.

Meditar? Sim, meditar. Provavelmente o local mais extraordinário que você poderá ir para meditar será seu próprio quarto ou sala de casa. Os melhores horários são ao acordar (caso acorde bem cedo) ou antes de dormir (caso durma bem tarde) para que os ruídos externos a vizinhança estejam reduzidos. Se não puder contar essa paz no local onde esteja residindo sugiro ir a uma Igreja Católica em dias de semana, sem missa. Apenas fecharemos nossos olhos mantendo a coluna ereta e as mãos apoiadas nos joelhos e tentaremos não pensar em nada. “Tentaremos” porque é realmente difícil demais. No começo, ficar sem pensar em nada por dois segundos parecerá impossível, acredite. Mas quanto mais conseguir não relembrar dos acontecimentos do passado e nem temer pelo futuro, esse “espaço em branco” que terá a chance de se abrir pela primeira vez em sua mente trará um pouco de paz imediata e a possibilidade de encontrar soluções para o presente, justamente o que precisamos.

Neste Passo, nos concentramos em nós e em nosso Poder Superior para ouvir nossa “revelação pessoal”, para obter tudo aquilo que será melhor e mais saudável para nossas vidas e o mundo.

Sugestão de Ferramenta de Recuperação:
Espaço e horário em que possa ficar só, para orar/refletir e meditar.

12º PASSO

“12. Tendo experimentado um despertar espiritual, graças a estes Passos, procuramos transmitir esta mensagem aos alcoólicos e praticar estes princípios em todas as nossas atividades.”

Este Passo dará início a um novo hábito de relacionamento que nos aproximará daqueles que estão passando pelos mesmos problemas que já estamos superando a quem a vida aproximar de nós pelas mais variadas razões. Chegou a nossa vez de nos tornarmos um “espelho”. Atingiremos a interdependência: colaboramos nos processos de cura e ao mesmo tempo observamos nos recém-chegados situações que não mais desejamos a nós, reforçando nosso compromisso pessoal de recuperação ao passar a ajudar aos demais; na famosa estratégia do Vence-Vence.

Neste Passo também fazemos da prestação de serviço (trabalho servidor) um ato de gratidão pela mudança vivenciada através de nossos esforços e com a orientação dos companheiros, padrinho/madrinha e do Poder Superior. Ajudamos outras pessoas também a se encontrarem e a “chegar lá”. Não deixamos mais os outros sozinhos e desse modo também nunca mais seremos sozinhos. Trocamos definitivamente antigos comportamentos de sobrevivência pela vida plena.

Sugestão de Ferramenta de Recuperação:
Estar entre companheiros novos e antigos.

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