Aspectos da personalidade do dependente de Cocaína

O uso da cocaína acarreta sérios prejuízos ao indivíduo e à sociedade, interferindo em aspectos sociais, familiares, legais e profissionais do usuário. O uso crescente e preocupante da droga é um fenômeno que afeta muitos países e pessoas de diferentes classes sociais. Apesar da atenção que vários órgãos nacionais e internacionais têm tido ao abordar o tema, a disseminação das múltiplas formas de utilização da cocaína tem continuado. No Brasil, vivemos atualmente uma verdadeira epidemia de crack, que tem devastado famílias e preocupado entidades profissionais.

De todos os indivíduos que experimentam cocaína, 5 a 6% se tornam dependentes dela nos dois próximos anos. Fatores relacionados ao maior risco são: raça, sexo, idade e via de administração. Além disso, fatores da personalidade interferem neste processo. A experimentação parece estar associada a algumas características de temperamento do indivíduo, como alta procura por novidades e baixa esquiva por danos.

Os transtornos de personalidade são definidos pela OMS como um padrão persistente de comportamento disfuncional que tende a persistir e são a expressão característica da maneira de viver do indivíduo e de seu modo de estabelecer relações consigo mesmo e com outros. Costumam surgir precocemente sob a influência conjunta de fatores constitucionais e sociais e representam modalidades de comportamento profundamente enraizadas e duradouras, que se manifestam sob a forma de reações inflexíveis a situações pessoais e sociais de natureza variada. Manifestam-se como desvios extremos de percepções, pensamentos, sensações e particularmente de relações interpessoais. Tais tipos de comportamento são geralmente estáveis e englobam múltiplos domínios do comportamento e do funcionamento psicológico, além de estarem associados a sofrimento subjetivo e comprometimento do desempenho social.

A associação entre abuso de substâncias e transtornos da personalidade está bem estabelecida, assim como suas implicações na evolução do quadro. Em pacientes com essa comorbidade, a adesão ao tratamento e as taxas de abstinência costumam ser menores quando comparados a usuários de substâncias sem estes transtornos, contribuindo assim para um pior prognóstico e dificultando o manejo destes casos. Em dependentes de cocaína, a co-ocorrência de transtorno de personalidade chega a 70%. Nestes, os transtornos mais prevalentes são: transtorno de personalidade antissocial, borderline e narcisista assim como outros transtornos com características impulsivas.

Outra maneira de se avaliar a personalidade é de forma dimensionai (a OMS e outras entidades classificatórias avaliam de forma categorial). Neste caso, os transtornos de personalidade podem ser vistos como um extremo mal adaptativo de dimensões normais da personalidade, formando um continuum, entre o considerado saudável e o patológico. Por esta classificação, os dependentes de cocaína apresentam características diferentes da população geral como maior busca por novidades, menor persistência, autodirecionamento e cooperativismo.

Um estudo bastante interessante avaliou mais de 100 pacientes dependentes de cocaína internados em comunidade terapêutica através do teste de Rorschach. Na maioria destes indivíduos, observou-se índice patológico de déficits de recursos, que representa prejuízos interpessoais, com dificuldade de manejo e habilidades sociais pobres. Foi demonstrado também que muitos dos dependentes apresentam distorções cognitivas: evitam a complexidade (por exemplo, negam memórias de eventos negativos).

PERSONALIDADE ANTISSOCIAL

Outra questão importante é o fato de muitos dependentes não preencherem todos os critérios para transtorno de personalidade antissocial, mas demonstrarem comportamento antissocial: este comportamento pode ser uma adaptação aprendida para o estilo de vida do uso de drogas, uma atividade por si só ilegal. Isso pode ser um facilitador para outras atividades ilegais. Observa-se que pacientes dependentes vão, ao longo do tempo, perdendo noções básicas de ética moral e que as leis, no submundo da droga, são outras. Assim, ver alguém ser assassinado pode não ser tão assustador e roubar para conseguir droga passa a ser algo corriqueiro.

Estes são pontos que devem ser levados em conta ao se trabalhar com aqueles que buscam ajuda para ficar sem a droga. E como se tivéssemos que reensinar a eles o que é certo e o que é errado e tentar retomar pensamentos funcionais. Muitas vezes, dizer a eles coisas óbvias como: “Para ficar sem a droga você deve evitar aqueles que a usam” soa como uma grande novidade e melhor, pode surtir efeito.

CRACK E SEUS EFEITOS

O crack é a cocaína no estado de base livre do ácido clorídrico (HC1). Pouco solúvel em água e com ponto de fusão entre 96 e 98°C, o crack é fumado em cachimbos e outros aparatos improvisados. Seus efeitos são intensos, de início imediato e mais breves que as demais formas de apresentação da cocaína. De forma mais específica, os efeitos psíquicos acontecem em duas etapas distintas e sempre na mesma ordem, ou seja, primeiramente acontecem os efeitos positivos (de prazer) sucedidos pelos efeitos negativos (desagradáveis, a saber: alucinações, delírios, fissura e sentimentos de arrependimento e tristeza) (OLIVEIRA & NAPPO, 2008).

Pela grandiosidade do prazer, pela sensação de urgência causada pela fissura e pela necessidade de um paliativo aos efeitos negativos, é muito comum que os usuários administrem repetidamente a droga, o que os leva a um padrão compulsivo de uso, prolongando-o até que se sintam esgotados física, psíquica ou financeiramente, de tal forma que sono, alimentação, afeto e sobrevivência frequentemente perdem o significado. (OLIVEIRA & NAPPO, 2008).

Na falta de dinheiro, buscam por um continuum de atividades ilícitas que suprem a necessidade por crack, iniciando com a venda de pertences próprios e de familiares à realização de roubos, prostituição, tráfico, golpes, entre outros, que sofrem, de alguma maneira, a interferência do gênero do usuário. (OLIVEIRA & NAPPO, 2008) A descrição do prazer e dos efeitos negativos vivenciados, assim como do comportamento assumido pela droga, pouco variam em diferentes contextos socioculturais. Além do perigo a que submetem a condição de saúde (dada à predisposição a doenças infectocontagiosas; às substâncias tóxicas provenientes da associação com outras substâncias; à possibilidade de acúmulo de metais no corpo e seus desdobramentos neurológicos; entre outros), sugere-se que o uso crônico de crack interfira na saúde mental e no funcionamento cognitivo geral do usuário, podendo gerar deficits de memória e de recursos atencionais, efeitos que não necessariamente são reversíveis com a abstinência (OLIVEIRA et al., 2009).

Considerando-se que esses riscos à saúde podem ser agravados pelas novas formas de administração da droga e das técnicas que os usuários têm desenvolvido para sua consumi-la, o investimento científico em mais estudos se faz necessário para atualizar e aprofundar os conhecimentos sobre esse uso, orientando e atualizando as estratégias de intervenção que possam controlá-lo.

Arthur Guerra de Andrade é médico psiquiatra, Professor Associado do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), Professor Titular de Psiquiatria e Psicologia Médica da Faculdade de Medicina do ABC, Presidente Executivo do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (CISA)

Flávia Ismael é médica psiquiatra, coordenadora do Serviço de Emergências Psiquiátricas do Hospital Albert Sabin em São Caetano do Sul, coordenadora da Enfermaria de Psiquiatria do Hospital Estadual Mário Covas de Santo André e médica pesquisadora do Grupo Interdisciplinar em Estudos de Álcool e Drogas do Instituto de Psiquiatria do HC-FMUSP

Lúcio Garcia de Oliveira é biomédico, Mestre e Doutor em Psicobiologia pelo Departamento de Psicobiologia da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Atualmente é pós-doutorando pelo Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) e bolsista pela FAPESP Solange A. Nappo é farmacêutica, Professora Adjunta da UNIFESP, professora de Pós-Graduação do Departamento de Psicobiologia da UNIFESP e Pesquisadora do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas CEBRID

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