ONDE ESTÃO NOSSAS MULHERES?

Recentemente fui visitar um grupo numa pequena cidade  e ao final da reunião uma companheira veio agradecer minha presença feminina no grupo.          Desabafou sua dificuldade em ser a “única” mulher alcoólica do lugar.          Sabemos muito bem que isto não é verdade. Existem mulheres alcoólicas sofrendo sua dor e deixando de procurar ajuda por medo de serem desmoralizadas perante a sociedade que permanece enrijecida diante do preconceito e discriminação de gêneros.

A cultura machista, mais comum em cidades menores, impede a passagem pela porta de uma sala de A.A., mais estreita às mulheres.

Quando ingressei na Irmandade de A.A., ouvia com muita atenção o trecho do preâmbulo que diz: “Somos uma irmandade de homens e mulheres…” Sentia-me favorecida, acolhida, incluída no todo, pela Unidade. Contudo, olhava para o lado e me perguntava: “Onde estão as mulheres alcoólicas desta cidade de um milhão de habitantes? Éramos somente nós, cinco mulheres, as únicas alcoólicas desta cidade?”

Vivi o mesmo drama da companheira que se sente sozinha e o pior é que às vezes eu mesma me discriminava. Era difícil encontrar identificação nos depoimentos dos companheiros, mas eu me esforçava. E com esperança a fim de resolver meu problema comum: o alcoolismo… Agarrava-me nisso.                 Às vezes me sentia “envergonhada por ter sido a única mulher da família vítima do alcoolismo e de ter admitido que perdi o domínio da minha vida”. A sociedade aceita mais facilmente o alcoolismo, pelo qual são acometidos os homens, principalmente em cidades provincianas que têm nome de família a zelar e status social a preservar. Mesmo quando a doença já não tem mais controle, ainda assim, escondem ou tentam esconder da própria. Já vi na família quadros tristes da famigerada NEGAÇÃO.                                                                        Voltando ao preâmbulo, nos dias atuais pouco vejo na sociedade discursos ou falas que incluam vocábulos femininos no seu conteúdo. Os artigos, pronomes, substantivos femininos são engolidos pela generalização masculina. Em auditórios cheios de mulheres e poucos homens, ouvem-se: “Boa noite senhores…”, “peço a todos a gentileza…”, “Você mesmo pode encontrar a saída”… e daí seguem-se inúmeras situações cotidianas que passam despercebidas, mas que mascaram a discriminação de gêneros.  A.A. concede a nós mulheres, o sentimento de pertencer e fazer parte. Somos homens e mulheres que compartilhamos nossa recuperação. Recebi a dádiva do Poder Superior de me mudar para o Rio de Janeiro onde encontrei muitas mulheres nas salas de A.A. Minha recuperação está ainda mais fortalecida porque não me esforço mais para encontrar identificação.                                         Companheiras contam suas histórias sem medo do julgamento. Compadeço-me das companheiras solitárias das pequenas cidades e agradeço a CORAGEM de cada uma por terem vencido as barreiras do preconceito.                Cada mulher que passa pela porta, quando entra e fica, me sustenta dentro de A.A. e é maravilhoso conviver com companheiras atuantes em A.A. contando com bravura suas histórias, trabalhando no CTO, participando de Comitês de Serviços e cumprindo encargos importantes em A.A. como um todo e sendo responsáveis pelas tradições.                                                                    Sou uma mulher em A.A., dentro de uma Irmandade de homens e mulheres que respeitam princípios igualitários, incluídos na mesma oportunidade de uma vida digna e feliz.

Juliana

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