A CONQUISTA DE UM CAMINHO Capítulo 6

 

 

DESCONHECIMENTO DA DOENÇA 

A par da verificação de que a minha ignorância  de aspectos   básicos sobre alcoolismo,  retardaram em muito o tratamento de meu companheiro e de um de meus irmãos, também alcoólico, além de terem causado muito sofrimento extra para mim mesma, minha família e amigos, descobri,  que mesmo entre psiquiatras esse conhecimento não é a regra. Descobri que mesmo em países mais adiantados nesses estudos, ainda há um atraso muito grande, possivelmente por ser uma questão muito complexa e envolver atitudes culturais, crenças e preconceitos e também por ser o seu estudo a nível acadêmico muito recente. Até pouco mais de vinte anos atrás, em nossa terra, o alcoolista era internado em clínicas psiquiátricas e não havia um tratamento específico. Ficava algum tempo internado junto com doentes mentais e depois era devolvido ao meio e recomeçava a beber, via de regra.
Não é só no Brasil que os profissionais da saúde não são preparados para atender estes pacientes. E quando alguém  despreparado tenta fazer alguma coisa nessa questão, quase sempre comete erros. E tenho visto, muitas vezes, iatropatogenias graves, ocasionando recaídas e interrompendo tratamentos adequadamente orientados.
A minha convicção de que os conhecimentos básicos dessa  questão devem ser de conhecimento público geral, se firmaram recentemente, corroborada por  especialistas. Ao mesmo tempo em que conheci alguns dos “papas” da questão de drogas no mundo, que falam abertamente da validade dos grupos de mútua ajuda para a manutenção da abstinência e recuperação.
Tive algumas discussões com colegas que pensam ser os grupos de ajuda mútua concorrentes seus, e com outros que simplesmente os rejeitam, sem os conhecer. Mas, por outro lado, encontrei profissionais maravilhosos que compreendem a amplitude da questão e o espaço que cada ideologia ocupa, e estão dispostos a fazerem o máximo, assim como membros dos grupos muito bem preparados e ativos. Sei que há muito trabalho pela frente e muita gente preparada e cheia de vontade. E isto me enche de entusiasmo. 

 

SAINDO DA CASCA

Participei de um encontro internacional sobre drogas, no exterior,  e me surpreendi com a minha tranquilidade, mesmo quando expunha os meus pontos para um grupo de alto nível,  tendo a oportunidade de comprovar a minha melhora,  em meio a toda aquela situação nova.
Num congresso internacional em São Paulo, participei ativamente de todas as mesas onde estive. Descobri, nesse encontro, que a minha timidez havia desaparecido completamente. Fiquei muito feliz nesse congresso, entre outras coisas, por conta dessa percepção.
Fui convidada para participar de uma mesa num outro congresso no exterior e compareci, tendo ficado desta vez  um pouco nervosa, mas o normal para a situação.
Estive até em comitês eleitorais cobrando uma posição de nossos governantes, que tem relegado essa questão tão grave a segundo plano, quando em outros países desperta  a atenção das autoridades há muito tempo.  E  novamente comprovei para mim mesma o grau da minha recuperação falando para plateias onde estavam presentes algumas das maiores autoridades do País, sem nenhum constrangimento ou temor.

 

DOCUMENTOS

Redigi documentos que falavam sobre o volume de dinheiro movimentado pelas drogas.
Falei do grave problema de saúde pública que é o abuso e a dependência de álcool, do agravamento com o aumento de consumo entre jovens e adolescentes, com a preocupação com a diminuição da idade de início e a inclusão das meninas. Quanto mais cedo o início de uso, mais cedo e mais graves surgem as consequências.
Falei da relação de acidentes de trânsito e taxa alcoólica no sangue dos envolvidos. Da relação álcool e violência.
Do baixo custo das bebidas alcoólicas entre nós e da baixa taxação.
Falei do documento da OMS que fala que o consumo está diretamente ligado a disponibilidade. Quanto mais disponível, maior o uso, o abuso e a dependência. De qualquer droga.
Falei da preocupação com a difusão da ideia de que maconha é droga leve entre a nossa população. Enquanto  pesquisadores procuram descobrir se a psicose induzida pela erva é própria ou se é ativação de uma doença preexistente, e da preocupação da veiculação de ideias de liberação.
Lembrando sempre que a maior disponibilidade está relacionada a maior uso, abuso e dependência.
Falei do desconhecimento dos técnicos e da necessidade da inclusão de matérias específicas nos currículos dos cursos da área de saúde.
Agora eu falo com quem for preciso, onde for preciso, sem qualquer receio. E a capacidade de falar em público foi seguramente adquirida ou facilitada no grupo de Al-Anon.

 

CERTIFICADO DE CRESCIMENTO

Há um ano um quadro meu, colocado numa exposição em São Paulo foi premiado. Eu fiquei tão feliz com aquela simples medalha de bronze que sei que pouca gente entendeu  a desproporção de minha alegria. Desfilava a minha alegria pelos corredores da repartição, convidando todos  para a festa.
Só uns poucos, mais chegados,   entenderam  ter ali os sinais de um recomeço, de uma vida nova, cheia de entusiasmo. Aos menos chegados deve ter soado como um sinal a mais do meu desequilíbrio. Não tem importância, com o tempo eles talvez entendam. 

 

REFAZENDO VÍNCULOS

Recomecei a buscar contato com os meus familiares e amigos e reatei o que pude. Alguns sentiram-se muito afetados pelos anos de desacertos e ainda tenho algumas dificuldades. Mas eu não tenho pressa.
Um dos meus irmãos entrou numa fase muito grave de alcoolismo, o que me deixava muito incomodada enquanto não me sentia em condições de ampará-lo. Finalmente, ano passado, surgiu a oportunidade de orientar o seu tratamento e ele está abstinente há  um ano, e muito bem. Está recuperando tudo – a amizade dos filhos e netos, a autoestima e o seu lugar no mundo.
Na minha busca por melhora estive atrás de minhas raízes e descobri pessoas maravilhosas em minha família e fora dela, algumas que eu nem conhecia, outras que apesar de admirar, nunca havia me aproximado pela timidez, que moram em outros estados e que são muito importantes em minha vida, agora. E eu sei que sou querida por elas. Tenho procurado estar com elas sempre que possível.
Entendi até de onde vem a minha necessidade de cuidar dos menos favorecidos, na figura de um maravilhoso médico do interior que cuidou de minha família a vida toda sem nada cobrar. Ele vive no interior e é muito importante em minha vida, agora. Visito-o sempre que posso e adoro a sua família que conheci há poucos anos e me parece ser minha desde sempre.
A minha capacidade de atenção e concentração se normalizaram e a minha memória está boa, não tanto como quando tinha 20 anos, mas para o que eu preciso é suficiente.  Afinal, já tenho mais de 50 anos.
Estou fazendo mais um curso, desta vez de especialização em dependência de drogas e estou achando ótimo. Neste curso, tenho uma companhia assídua e incentivadora, na figura de um colega que preciso correr para alcançar, porque estuda mais do que eu – o meu companheiro. 

 

ESPIRITUALIDADE

Não deixo de frequentar grupos  Al-Anon e amo  todos os companheiros que conheci e me ajudaram na minha recuperação. Ajudaram não, ajudam, já que continuo em tratamento e quero estar cada vez melhor. Ás vezes ainda me deixo levar por algum acontecimento que  me faz voltar para tristezas do passado e fico algum tempo me sentindo mal. Mas estou aprendendo a discriminar, a entender esses acontecimentos e não me sinto tão culpada como antes, por recair. Estou aprendendo a lidar com isso de uma maneira natural e serena. Tenho que me perdoar por esses lapsos, afinal, pela gravidade de meu acometimento ainda estou convalescente. Passou-se muito pouco tempo, desde que comecei a me tratar.
Muito pouco tempo, para uma vida inteira.
A compreensão da maravilha que é a expressão -só por hoje – me traz uma serenidade impensável há alguns anos, mesmo tendo lido filósofos que já fizeram a mesma  afirmação. Entendi a diferença entre entender, conhecer e praticar um mínimo, de uma filosofia.
O que o programa me trouxe foi a possibilidade de buscar modos de colocar em prática um programa de crescimento que me faz ir de encontro a uma vida harmônica comigo mesma e com o ambiente. Aprendi que isto é espiritualidade.
Foi no grupo que pude entender esse mundo como uma gigantesca e perfeita engrenagem onde eu sou apenas um ponto e tenho uma função.
Foi esse grupo que me possibilitou me perceber como parte de algo maior, como capaz e possível de entrar em sintonia comigo mesma e com os outros. Foi esse grupo que me possibilitou recuperar a fé.
Foi nesse grupo que pude perceber a necessidade de perdoar, especialmente a mim mesma. 

 

TRABALHO

Estou trabalhando com dependentes de drogas, em uma Universidade  e gosto muito do que faço. Devo abrir consultório mais uma vez, porque já começo a ser pressionada pela demanda.
Faço palestras sobre alcoolismo e outras dependências e é claro, não paro de estudar a questão, prazerosamente. Tenho amigos em todos os ramos e modelos de tratamento de dependência de drogas e vejo que todos trabalham com muito empenho e dedicação.
A pintura e a fotografia são outras fontes de prazer em minha vida. Também gosto muito de escrever e tenho colocado as minhas ideias no papel e talvez, quem sabe um dia, saia um livro. 

 

CORAGEM

Não tenho medo do futuro. A bem da verdade não tenho medo de nada. Posso enfrentar qualquer situação. Eu sei que sou pequenina, um grãozinho de areia, mas tenho o meu valor. E fé.
A vida ficou boa. E vejo um campo vastíssimo de possibilidades à minha frente.
Quando tenho a oportunidade de falar do Al-Anon, em qualquer ambiente, o faço. E conto como recuperei muita coisa. Tenho perguntado aos meus colegas de profissão se eles vêm alguma limitação ou contra indicação no Al-Anon e até hoje não obtive resposta. A meu ver, não há. Ou talvez haja, mas não acredito que seja maior do que a que ocorre em qualquer outro tipo de tratamento médico ou psicológico. De qualquer maneira, do meu ponto de vista, os seus benefícios ultrapassam qualquer eventual  dúvida.
Tenho visto verdadeiros milagres, em relação a drogas, tanto em grupos de mútua ajuda como em tratamentos médicos. Não há motivo para desespero. Há abordagens eficazes para todo tipo de paciente. Mas é sempre prudente lembrar que como em qualquer doença, alguns irão se perder, mesmo usando todos os recursos existentes e que o tempo necessário para recuperação varia para cada um. E que recuperação é um processo.
Iniciei um caminho em busca de algo que havia esquecido há muito tempo – espiritualidade.
Recobrei a capacidade de me maravilhar. Vejo as grandes e pequenas joias que me cercam em tudo. Na netinha de dois anos, num animal e numa flor. A minha vida nunca é monótona e nem aborrecida. À minha volta acontecem pequenos milagres o tempo todo e eu tenho estado alerta para percebê-los. 

 

HOJE

Hoje é sábado e estou em minha casa, sentada à frente do meu computador retocando estes escritos. Eu me sinto confortável e tranquila. Na vitrola, um disco alegra o ambiente e a minha cadelinha  de vez em quando vem me ver ou deitar-se aos meus pés. A empregada ajeita a cozinha antes de sair. O meu companheiro vai chegar mais tarde, porque depois do seu trabalho na clínica para dependentes, irá a uma reunião festiva em AA. O jardineiro foi embora há pouco, depois de ajeitar os pequenos canteiros do jardim e plantar um pé de primavera que ganhei de presente de uma amiga.   Lá fora o sol alegra este começo de tarde de inverno e o céu sem nenhuma nuvem nos cobre de maneira generosa.
Eu não sei definir, sei que ninguém sabe, mas se tivesse que dar um nome ao que sinto hoje, seria, sem dúvida felicidade.
Ofereço este escrito ao meu companheiro, cada dia mais querido, e a todos os companheiros que em AA ou Al-Anon buscam a sobriedade.
Ofereço também aos profissionais que se dedicam a esse tema apaixonante, pela dedicação que tenho observado como colega.         

 

São Paulo, 18 de setembro de l.999.

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