A CONQUISTA DE UM CAMINHO Capítulo 3

 

 DEPRESSÃO

Com o correr do tempo a minha capacidade de concentração diminuiu muito e eu não conseguia ler um livro ou um documento. A memória  foi se degradando e eu piorava dia após dia. Ou melhor, nós dois piorávamos. Éramos o espelho um do outro.
A vida ficou ruim a tal ponto que eu achava que não podia piorar, e no entanto, piorava. Por ocasião do seu  câncer de intestino, estávamos pensando em separação, tal o desacerto de nossa relação. Reconsideramos a idéia de separação, engolimos aquele monte de sentimentos ruins e desencontrados. Era preciso continuar.
Eu não me dava conta de que as atitudes que tinha em casa com ele eu acabava  levando para todos os meus relacionamentos. No trabalho, fazia um esforço imenso para preservar um pouco a qualidade dos relacionamentos, mas eu estava doente demais para me controlar o tempo todo.
Afastei-me dos amigos, dos familiares e não tinha a mínima capacidade de fazer novas amizades. Tenho alguns raros e especiais amigos dessa fase, que conseguiram se relacionar comigo e me entender, apesar de tudo. Poucos deles sabem da minha história.

 

TRATAMENTO

O médico que cuidou dele durante o episódio do intestino, um renomado professor de medicina, falou da necessidade de controlar o uso de álcool e depois, quando viu que ele não conseguia, recomendou que deixasse de tomar destilados, que bebesse somente fermentados. Ele obedeceu. Ao invés de tomar algumas doses de uísque ou vodca, tomava muitas cervejas ou algumas garrafas de vinho. Tudo continuou igual.
Eu me lembro que depois de sua cirurgia, eu estava desconsolada. Eu me sentia culpada por tudo e pensava que ele poderia morrer.
O professor que o atendia, certa vez, ao me ver chorando,  disse sério – você pensa que ele vai morrer ? E se ele não morrer, e se ele viver mais quinze anos ?
Senti um baque. Foi aí que eu me dei conta da minha ambivalência. Eu queria que ele vivesse. Mas havia atingido o meu limite, do jeito que tinha sido até aquele dia eu não poderia mais continuar.
Mais tarde soube que atingir o limite ajuda o familiar a se posicionar e facilita  a busca de tratamento pelo dependente.
Só mais tarde pude perceber o quanto essa doença é complicada.

 

TRATAMENTOS

Aceitamos todas as indicações de tratamento que nos deram para o seu alcoolismo. Uma delas, psicoterapia analítica com um famoso profissional nos deu esperança.  No retorno após a primeira consulta, ele contou animado que o terapeuta havia dito que parar de beber era fácil, que difícil eram as outras questões que ele tinha que resolver. Quase um ano depois, muito dinheiro a menos, ele continuava bebendo antes de ir para a sessão com o analista. Um dia desistiu e eu não insisti.
Anos depois ele me contou que aceitou a terapia como manipulação, como um meio de me dizer que ele estava fazendo alguma coisa para se recuperar. Assim, eu o deixaria mais livre para beber sossegado.
Eu  me lembro de perceber as mudanças no correr do tempo.
Ele, devagar, descuidou-se um pouco com sua roupa, com sua aparência. Não era mais tão atento aos detalhes.
Ele que nunca alterava a voz, chegou a dizer palavrões. Pode parecer estranho, para quem não o conheça, mas um palavrão, por mais comum que seja, não combina com ele.
Isso refletia uma alteração muito grave e inaceitável para nós dois.
Alguns alcoólicos agridem fisicamente suas esposas e filhos, falam impropérios e ofendem os seus. O clima no lar torna-se tenso. Mas é preciso lembrar que cada um funciona diferente do outro. Uma agressão física pode ser menos grave do que um palavrão. Há que se levar em conta o nível basal do comportamento anterior ao acometimento.
Continuamos juntos numa derrocada para baixo. Os meus sintomas de menopausa eram muito sérios e minha disposição para qualquer coisa era mínima. Tinha que cuidar dele e nem  me cuidava ou podia cuidar dele direito. E continuava trabalhando num sistema público de saúde que estava tão doente quanto eu. Num dos vínculos eu continuei atendendo paciente por mais algum tempo.

 

SAÚDE FÍSICA

Eu sentia-me muito mal  o tempo todo e um dia procurei médico. Um cardiologista famoso me receitou um medicamento para o coração. Isto me deixou pior. Estar fisicamente doente era algo insuportável, um peso a mais. Tomei o medicamento por algum tempo, um dia resolvi que não tinha nada no coração e não tomei mais o medicamento. Era só coração apertado, pensei. Até hoje não tirei muito a limpo isto, não. Mas estou bem.
De outra feita, tive uma tosse intensa por uns dois ou três meses seguidos. Fiz todos os exames que imaginei. Procurei até câncer no pulmão. Um dia passou. Nunca descobri a causa.
Ganhei peso, fiquei com um aspecto de matrona. Envelheci dez anos em uns dois.
Percebi pelos colares que usava que o meu pescoço estava mais grosso. Eu havia engordado um pouco, mas assim mesmo pedi para um colega palpar a minha tireoide. Estava aumentada. Alguns exames mostraram uma tireoidite.

 

PIOR FASE

Quando me lembro dessa pior fase, lembro de alguns sofrimentos evitáveis de que fui vítima. Colegas que se recusaram a fornecer atestado para alguma falta esporádica ao trabalho, outros que me recusaram licença médica, mesmo verificando no prontuário que eu não tinha nenhuma licença anterior em mais de dez anos de serviço. O chefe que depois de medir a minha pressão arterial e ver que estava normal, exigiu que eu atendesse os trinta pacientes que estavam aguardando por consulta, mesmo eu dizendo a ele que não tinha a mínima condição de fazê-lo.  Eu os entendo agora.
O sofrimento de uma depressão e mesmo os sintomas de menopausa nem sempre dão sinais exteriores suficientes para um  diagnóstico, se o médico atendente não estiver muito receptivo, e mesmo quando diagnosticado, não dá indicação do grau de sofrimento. A queixa não condiz com a aparência do paciente, há um descompasso que dificulta a compreensão mesmo dos mais preparados. Acredito que eu mesma tenha cometido tais erros com algum paciente. O companheiro ficou alguns meses sem beber por conta de uma quimioterapia após a cirurgia do câncer de intestino, mas reincidiu logo depois. A vida não tinha ficado melhor com a sua abstinência. Ele dizia que eu exigia tanto que ele parasse de beber e que, no entanto quando ele parou eu não melhorara o meu modo de tratá-lo. E era verdade. Eu estava doente demais para melhorar o que quer que fosse e ele não podia perceber ou entender isso. Ele não tinha motivos para parar e eu não sabia o que fazer. Continuamos o nosso relacionamento francamente destrutivo.

 

ESPIRAL PARA BAIXO

A minha depressão se agravou e a dele também. Entramos numa espiral para baixo e eu fui perdendo cada vez mais. Juntei os dois vínculos de trabalho num só e fiquei meio encostada num órgão administrativo. Deixei de ser médica, só trabalhava com processos e papéis. Além da impotência frente ao seu modo de beber e a minha  vida, tinha agora uma sensação de inutilidade. E isto, sem dúvida, só pode agravar qualquer depressão. Ele aposentou-se e eu também consegui me aposentar num dos vínculos. Fiquei com somente um vínculo de quatro horas por dia.
E nestas quatro horas muito pouco era exigido de mim.
Entendi que para mim, a melhor coisa que aconteceu, foi estar prestando um serviço meio frouxo, sem a expectativa do paciente, nessa fase, porque a questão da saúde pública nesta cidade foi se complicando de tal maneira que não se poderia imaginar, e até hoje, anos depois, continua uma incógnita, e não se consegue ver uma saída clara para o  emaranhado da  trama alcançada  pela incompetência e desmandos sucessivos, somados a corrupção.
Na verdade certifiquei-me de que o serviço público está de tal maneira organizado que muitas vezes é muito mais fácil permanecer sem fazer nada do que tentar fazer alguma coisa produtiva.
Isto porque depois dessa fase, quando melhorei, consegui fazer muito pouco, quase nada, do muito que tentei, despertando sempre a desconfiança dos colegas quando me esforçava um pouco mais.
A ordem subliminar é – faça o menos possível, fique no seu lugar, senão, ante a ameaça de desestabilização, o sistema te devora ou rejeita.

 

SEM SAÍDA

Não tínhamos vontade para nada. Éramos suicidas em potencial. E tudo a nossa volta conspirava contra nós. Caminhávamos em direção a imobilidade, à morte. Eu nunca pensei em suicídio, mas pensava que para nós dois não havia saída, só a morte nos libertaria, a de um dos dois ou dos dois. Nós nos maltratamos demais.
Nesse tempo todo eu continuei procurando ajuda. Ele, ao contrário, estava como que adormecido. Eu o chamava de belo adormecido e perguntava quando ele ia acordar. Vivia intoxicado, diariamente, e depois de algum tempo, a partir da hora do almoço. Nunca bebeu pela manhã, mas de repente não precisava beber muito. Dois drinques já o deixavam embriagado.
Pedi ao seu melhor amigo que falasse com ele. Não adiantou. Pedi aos seus filhos que fizessem alguma coisa. Não obtiveram sucesso.

 

UM CAMINHO

Uma amiga psicóloga, com uma sólida formação e carreira no exterior, me viu tão mal e quis me ajudar.  Fui a umas três ou quatro consultas e ela viu que o problema não era só meu. Pediu que trouxesse o marido comigo.
Tivemos umas quatro consultas e um dia ela disse que não poderia nos ajudar, que procurássemos o AA e o Al-Anon.
Eu sabia da existência do AA mas não sabia nada quanto a sua eficiência ou eficácia, lembrei-me que encaminhava os pacientes com acometimentos físicos secundários ao alcoolismo, mas eu sequer sabia da existência do Al-Anon.
Obedecemos e começamos a frequentar um dos grupos próximo de nossa casa.

 

AL-ANON

Eu me lembro da agradável surpresa que tive  logo na primeira reunião. Naquela sala nos fundos de uma igreja católica, havia cerca de doze pessoas reunidas. De várias idades, tipos físicos e  classificações sócio cultural. Era um grupo de pessoas  buscando tratamento para a desestruturação que a convivência com um ser amado alcoólico havia causado em suas vidas.
No início e final de cada reunião recitava-se a oração:

“Senhor, concedei-me a serenidade necessária

Para aceitar as coisas que não posso modificar,

Coragem para modificar aquelas que posso, e

Sabedoria para perceber a diferença.”

Essa oração era um achado. Serenidade era uma palavra esquecida em minha vida. E como eu precisava dela.
Era um ambiente de confiança e tranquilidade. Na mesa um pequeno cartaz dizia – “O que você vê aqui, o que você ouve aqui, quando sair daqui, deixe que fique aqui”. Outro cartaz continha o enunciado dos doze passos. Pediram que dissesse o meu primeiro nome e qual a minha relação com alcoolismo e me deram boas vindas.
Eu me senti eficientemente amparada e confortada pela primeira vez em muitos anos.
Logo me dei conta de que eu havia encontrado um caminho. Tudo o que quase todas aquelas pessoas reunidas ali  diziam, encontrava algum eco em mim. Eu cheguei a um lugar onde as pessoas podiam falar abertamente de seus problemas, de suas raivas e ressentimentos, de sua culpa, de sua convivência desastrosa.
Havia mais pessoas deprimidas como eu e que se sentiam sós e que como eu, se sentiam incompreendidas. Havia pessoas que entendiam o que eu falava.
Mas não falavam só da depressão e do sofrimento, falavam também de seus pequenos e significativos avanços. Alguns, de grandes avanços, de famílias reconstituídas e felizes. Isto era possível.
Falavam da culpa, do medo e da insegurança. Como foi confortador saber que o problema não era só meu. Que havia muita gente com o mesmo problema e buscando uma solução,  trocando experiências. Pela primeira vez em muitos anos acendeu-se uma pequena chama, um pequeno fio de esperança. Era um local onde finalmente eu poderia falar tudo aquilo que me incomodava e as pessoas iriam entender porque viviam, ou viveram no passado algo semelhante. Lá eu não me sentiria rejeitada e muito menos envergonhada pelo meu sofrimento tão intenso, pelas minhas mágoas. Lá as pessoas me acolheram com simpatia, de um modo muito diferente do ar de enfado que eu as vezes percebia em médicos e terapeutas que me atendiam, quando eu tentava dizer o que me acontecia e relacionar com as disfunções em minha casa.
Durante esses anos em que frequento os grupos vi inúmeras pessoas chegarem pela primeira vez, confusas, inseguras, cheias de medo e ansiedade, chorando, desalinhadas, e depois, pouco a pouco tornarem-se cada dia mais tranquilas, com os pensamentos bem concatenados e por fim, mostrando confiança em si mesmas e na vida, recompostas, alinhadas, recuperarem o humor e a serenidade, chegando, depois de algum tempo a rirem de si mesmas.
Descobri que o que eu tinha podia ser só uma neurose, mesmo.
Vi em muitos companheiros, sem traços de doença mental, o mesmo sofrimento descabido e exacerbado que não via em quase nenhum outro tipo de paciente.
Lá, finalmente, depois de muitos anos, eu  me senti  confortada.
Lá eu não tive vergonha de ser eu mesma. Lá, ao contrário de tudo o que eu experimentara antes, quando eu falava de minhas dores, sabia que estava sendo útil, ajudando outras pessoas que também sofriam. Lá muito rapidamente descobri que pequenos progressos devem ser partilhados e comemorados.

 

VOLTANDO O FOCO PARA MIM

Fiquei sabendo que o melhor remédio para a nossa situação era eu viver a minha vida, cuidar de mim mesma. Deixar que ele cuidasse da vida dele. Cuidar de mim, entender que o que ele sofria era doença e que no momento eu também precisava de cuidados. Enfim alguém aceitava que eu também estava doente.

Com o correr do tempo, com as reuniões e a literatura, me dei conta de que cuidando dele intensamente, eu o impedia de se responsabilizar por si mesmo. Era necessário deixar um certo espaço para que ele pudesse se expandir e se perceber. Entendi que não seria fácil. Mas era um caminho coerente e firme pela primeira vez a minha frente.

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