A CONQUISTA DE UM CAMINHO Capítulo 1

 

É a sensação de liberdade que eu não havia provado antes, é a capacidade que adquiri de viver sem medo e a certeza de que o impulso para esta nova vida nasceu da solidariedade sentida nos grupos de mútua ajuda que me levam a escrever. A mim se me afigura um egoísmo muito grande não partilhar esta experiência, quando tantos sofrem por motivos semelhantes aos meus sem saber deste caminho que para mim foi libertador.
Penso que se eu que sempre procurei um caminho, um tratamento adequado, e mesmo vivendo no meio médico, só o conheci depois de quase vinte anos de formada, é quase certo que  pessoas que vivem em outros meios tenham também tanta ou maior dificuldade do que eu  para o encontrar. Por outro lado há as questões inerentes a própria patologia em si. Negação é uma delas. O alcoolista nega a sua condição de um modo particularmente óbvio e a família acaba entrando no mesmo jogo e nega a própria  situação, esconde, mente, disfarça o próprio sofrimento, com uma frequência grande demais. E esta negação acarreta mais e mais sofrimento, retarda tratamentos e facilita complicações evitáveis.
É claro para mim que poucos familiares de alcoólicos desenvolvem uma doença tão grave quanto a que eu tive. Mas é seguro, também, que todos os que convivem com essa patologia tão comum são comprometidos em maior ou menor grau e necessitam de ajuda.
Mais do que isso, se o familiar não for tratado, o tratamento do dependente corre sério risco de não ser eficaz. Todo dependente químico necessita de uma rede de apoio amorosa e firme para se restabelecer. Num lar alcoólico, essa rede se perde, se rompe.
Ouvi muitas  vezes esposas relatarem que pediram ao marido sóbrio que voltasse a beber, depois de algum tempo de abstinência, abstinência esta conseguida depois de um trabalhoso e paciente cuidado de uma equipe especializada. Ela não estava preparada para conviver com a sobriedade. E este preparo vem com o conhecimento e mudanças. Só ajuda quem estiver pronto a pagar o preço. Amar é trabalhoso, mas compensador.
Por outro lado estou cônscia de que o tempo e a nossa memória dão alguns retoques nos acontecimentos. Alguns, de tão distantes, estão envoltos em fantasia. Mas o esforço é no sentido de mostrar o meu pensamento, a minha compreensão do que aconteceu e os fatos objetivos que ocorreram e que podem ser comprovados.

 

 O PRINCÍPIO

A partir  do curso primário e mais fortemente na adolescência, comecei a me sentir um tanto inadequada em meus papeis. Parecia que era necessário um esforço muito grande para fazer o que todos faziam sem esforço, especialmente no relacionamento com as pessoas. Em verdade eu sempre me soube um tanto neurótica.
Eu me sentia capaz de muitas coisas, parecia que se me deixassem, eu ganharia o mundo. Mas eu sentia um freio que não entendia muito bem de onde vinha. Parecia que tudo o que era bom era inatingível para mim. Meus desejos nunca eram concretizados.
Ocorre que sempre, no meu íntimo, desejei uma vida intensa. Uma vida cheia de tudo, uma vida onde não faltasse aventura, alegria, romance e sofrimento. Sim, porque eu acreditava que o sofrimento era inevitável.   Isto pode ser explicado pela religião cristã que o meu pai abraçou muito intensamente, e pelo sofrimento que lia no rosto de minha resignada mãe, que repetia ter que carregar a sua cruz até o fim. A sua cruz era o meu pai.
Uma de minhas irmãs sempre comentava, quando alguém se referia a minha timidez, que em pequena eu não era tímida, ao contrário, era alegre e conversava com todos, andei e falei muito cedo e passava de colo em colo e as pessoas gostavam muito de mim, e que lá pelos três ou quatro anos, comecei a ficar apagada, encolhida pelos cantos, nas suas palavras.
Achava a minha família a melhor que eu conhecia e comungava a idéia de união que havia entre os cinco irmãos. Eu não tinha parâmetros e não gostava dos lares barulhentos, com crianças gritando, fazendo algazarra. Não me agradava pais moles, permissivos, que deixavam os filhos muito à vontade. Desde muito cedo incorporei o modo rígido do meu ambiente como correto. Demorei muito para entender que não é exatamente assim.
Eu era uma criança boazinha, segundo minha mãe. Ela costumava dizer que eu não dava trabalho nenhum e até ficava sem comer se ela se esquecesse de me dar comida.
Eu me lembro de brincar sozinha no quintal de casa e de ajudar minha mãe a plantar alguns legumes.  Não é uma lembrança pesada, na verdade eu me encantava com a observação dos fenômenos da natureza. Observava atentamente o que acontecia nos canteiros e acompanhava o nascimento e crescimento de cada plantinha, o surgimento de cada lagarta e depois a sua transformação em borboleta. Brincava  com a terra roxa e ainda agora, ao lembrar-me do quintal, posso sentir o cheiro e a consistência  dos torrões que usava para fazer imensas montanhas, com túneis e pontes, rodeados de imensas florestas compostas de capins e  ervas daninhas.
Era intrigante, um milagre incompreensível para mim, as primeiras folhinhas de um verde claro brilhante, surgirem do meio da terra roxa. Após o plantio, ia todo dia espiar, para ver se já estavam surgindo. Acompanhava cada etapa, vendo quando a terra era empurrada, formando uma pequena elevação e depois se abria para deixar surgir a plantinha. E tinha aquele cheiro indefinível de uma folha de mandioca quebrada que mesmo agora, após tantos anos, ainda me vem à lembrança.
O meu lugar preferido era o alto da amoreira onde ficava horas a fio.
No ano em que completei sete anos de idade não pude ser matriculada no primário público porque o meu aniversário é em maio e houve excesso de crianças aquele ano. Fui matriculada numa escola particular.  Eu me lembro muito pouco dessa escola, sei que era uma casa com quintal onde as crianças brincavam no recreio. Durou muito pouco e até hoje não sei exatamente o que houve.
O que recentemente me ocorreu é que nesta escola pequena eu pude ser,  por muito pouco tempo, o que eu entendo por uma criança  normal. Lá eu senti permissão para ser eu mesma e até para fazer arte, integrada ao bando. Fiquei de castigo por conta dessa arte.
A professora até deu uma varadinha na minha perna. Naquele tempo os professores ainda praticavam algum tipo de castigo físico.
A novidade era grande demais para eu ficar quieta, eu não tinha entendido o jogo lá de casa e contei do castigo e da vara, e me tiraram imediatamente da escola. Diziam que a escola não era boa porque eu nunca apanhara em casa, eu era boazinha, e se eles me castigaram, estavam errados. Não deixa de ter lógica.
Ano seguinte, primário municipal. Um prédio enorme, aquele enxame de crianças de todas as idades, uma multidão de professores, zeladores. Eu me senti absolutamente apavorada. Eu não sabia como me comportar para não chamar a atenção. Tinha muito medo o tempo todo e aí sim, eu repeti o modelo lá de casa. Fui comportada, boazinha, sem chamar a atenção. Fui boa aluna como fui boa filha.

 

PAI

Era complicado para eu entender o que se passava à minha volta porque se por um lado a gente ia sempre à igreja e era o meu pai que havia ajudado a converter uma grande parte da família e amigos para o protestantismo, e construído igrejas, por outro lado, ele bebia  com frequência e era muito mal humorado em casa. Brigava quase o tempo todo com minha mãe e  dava pouca atenção aos filhos. Trabalhava por algum tempo em um emprego, até se desentender com o patrão, e ele se desentendia sempre. Ficava muito tempo desempregado e me parecia que nem se incomodava com isso. Ele não se esforçava para continuar no emprego, mesmo quando  estávamos em dificuldades e passando necessidades em casa. Ficava nos bares muito tempo e eu sempre soube que o seu dinheiro era dele, e que era lá, nos bares, que ele  gastava boa parte dele. Ao mesmo tempo via minha mãe, doente, triste, colada no tanque, lavando roupa para fora o dia todo para ganhar alguns trocados que ajudassem na manutenção da casa.
Durante muito tempo achei que ele era fiel a minha mãe, que ao menos esse defeito ele não tinha, e somente há poucos anos, muitos depois de sua morte, soube de uma  meio irmã,  da idade de um dos meus irmãos, fruto de um caso seu com uma jovem conhecida de todos em sua terra, que vivia por lá e pelo que entendi, quase em nosso quintal.
A menina, adotada por um primo dele, viveu sempre por perto, nos acompanhando em nossas mudanças e era nossa amiga. Faleceu há alguns anos atrás, mas tivemos algum tempo para conversar como irmãs. Eu gostava dela.
Sabia também pelos meus irmãos que desde os oito anos de idade, todos iam para a roça e trabalhavam duro, junto com minha mãe. Mas o meu pai, não. Ele se reservava o direito de um trabalho diferenciado. Construía casas, fazia móveis, consertava máquinas. E não ia para a roça.
Quando ele se zangava todos tinham medo. Ele não ficava aborrecido, ficava irado. Eu me lembro da sua expressão, dos seus olhos claros faiscantes. Eu tinha muito medo dele. Todos em casa tinham medo dele. Fazíamos o máximo para evitar contrariá-lo.
Mas ele era um homem fascinante. Inteligente, contava estórias como ninguém, tinha uma boa prosa, gostava de nos provocar com problemas e charadas, gostava de falar por horas a fio sobre história, geografia e matemática, cantava moda de viola com o primo e dizem que na juventude dançava quadrilha entre outras danças. Sabia a medicina caipira e lia o Chernowizz. Sabia de tudo. Encanava perna quebrada de bicho e de gente, sabia de unguentos e remédios para picada de jararaca e escorpião, consertava qualquer máquina quebrada. Era professor de escola primária e pregador da igreja. Chegou a ser vereador em minha cidade, apesar de não ter o primário completo. Era admirado e querido pelos muitos amigos e parentes.
Eu me lembro dele chegando em casa enlameado e cambaleante, em um dia de chuva, e de assistir às suas quedas na ladeira da rua de nossa casa, pela janela.
Eu não tinha um provedor regular. Ganhava as coisas que precisava ora de um irmão, ora de outro. E me lembro do mascate com a mala aberta esperando a discussão dele com minha mãe porque ele não queria comprar uma blusa de frio que eu precisava. Outra vez fiquei no canto escutando a briga dos dois para que ele aceitasse comprar um par de sapatos para mim. Acabou me levando a sapataria e no caminho tentei segurar na sua mão, mas ele não segurou a minha. Eu tocava uma mão grossa e inerte. Ainda agora, quase cinquenta anos depois, guardo a sensação da sua mão na minha, e do esforço que eu fazia para manter aquele contato.
Às vezes ele me dava um pouco de atenção. Ai desenhava uma casinha e um lago com patinhos para eu copiar. E talvez tenha sido desse pouquinho, que nasceu uma das minhas vocações. Penso hoje que eu queria muito me sentir  amada por esse homem que eu admirava e temia. Mas eu não me senti amada. A maior parte do tempo me senti ignorada. A única coisa que eu me atrevi a lhe pedir, uma bicicleta, ele prometeu e não cumpriu.
Soa estranho até para mim, mas na verdade, sinto como se não tivesse tido pai.
Eu não percebia que aquele jogo dentro de casa – éramos unidos, os seis, contra o meu pai, tinha a ver com o fato de ele estar sempre mal humorado. E ninguém pensava, por outro lado, que o seu mau humor e brutalidade pudessem ter a ver com o uso abusivo de álcool. Só entendi isso recentemente.

 

MÃE

Eu ficava muito tempo com minha mãe, caçula temporã que sou.
A irmã mais próxima é seis anos mais velha do que eu e aos cinco anos de idade, eu não tinha mais crianças por perto, só adolescentes e jovens. E ele é claro, não queriam me levar em seus passeios nem brincar comigo.
Minha mãe era uma mulher doente, muito rígida e triste. Não chorava porem raramente ria. Era mulher de uma palavra só.  Eu não ousava desobedecê-la. Trabalhava demais e íamos com muita frequência ao médico. Ela tinha úlcera e reumatismo. O seu olhar vivia perdido nas distâncias,  cheio de saudade. Da mãe que não voltou a ver desde que se mudou do filho de 17 anos que perdeu vítima da febre tifoide.
Penso que foi por conta de sua resignação, obediência e sofrimento que na adolescência nasceu em mim certo sentido de rebeldia, de não querer entregar-me ao sofrimento, de desobedecer quando a ordem não me parecesse justa. Ela sempre obedeceu e aceitou e não foi bem sucedida.
Ela contava que não havia estudado porque o seu pai dizia que menina não precisava aprender a ler. Quando um vizinho a pediu em namoro ele negou, e o motivo da recusa foi o fato de ela ser analfabeta pobre e escura, que iria sofrer em meio a pessoas cultas, ricas e brancas. Casou-se com meu pai com o seu consentimento  e foi infeliz desde o começo. Contava que após perder o primeiro filho recém nascido quis morrer. De resguardo fez tudo o que diziam que não podia fazer. Nadou no rio, tomou chuva, comeu alimentos proibidos. Não adiantou, só ficou com reumatismo.
Quando decidi estudar medicina ela tentou me demover desse intento. Argumentava que eu deveria estudar línguas, fazer um curso rápido de secretariado, trabalhar e ganhar dinheiro suficiente para me vestir bem e me divertir. Você vai sofrer muito, dizia, antecipando o meu futuro. Quando saí para ir para a faculdade foi uma das raras vezes em que a vi chorar.

 

ESTUDO E TRABALHO

Terminei o primário e me matriculei no ginásio. Meu pai me escreveu uma carta dizendo do seu orgulho por ter uma filha que terminou o primário aos 11 anos. Os meus irmãos só começaram a estudar muito tarde, ele mesmo nunca terminou o primário e minha mãe era analfabeta. Era uma vitória realmente.
Continuei tímida no ginásio. A escola, já em São Paulo, ficava perto, cerca de seis ou sete quadras, mas havia um enorme terreno baldio no caminho e eu cursava o período noturno.
Com a iluminação pública deficiente que tínhamos no início dos anos sessenta, eu tinha medo de voltar para casa.  Tinha uma coleguinha da mesma idade que morava algumas quadras à frente e vínhamos juntas. Depois de algum tempo minha mãe convenceu meu pai de ir nos buscar no  final das aulas. Ele o fez por cerca de uma semana.
No primeiro dia ele estava no portão da escola nos esperando. Nos dias seguintes, nós o encontrávamos cada vez mais longe da escola. Ao final, quando o encontramos esperando no portão de minha casa eu o dispensei. Ele nada disse e nunca mais foi nos buscar.
Então, andávamos depressa em frente ao terreno baldio e depois eu continuava um pouco mais porque a minha amiga tinha medo de passar embaixo de uma velha árvore que havia próximo de sua casa. Debaixo da árvore, cada uma corria num sentido.
Aos treze anos arrumaram um emprego para mim numa fábrica de roupas. Era, segundo eles, um trabalho limpo e maneiro e ainda ia aprender a costurar. Fiquei lá por quatro anos, ganhando meio salário mínimo para fazer serviço de gente grande e dois meses antes de completar 18 anos fui demitida. Com a minha auto-estima sempre em baixa eu me senti péssima. A sensação de ser mandada embora fosse dolorosa. Eu gostava do trabalho.
Era prazeroso pregar cuidadosamente, 120 bolsos de camisa ou fazer mais de uma centena de colarinhos, num mesmo dia. Fazer  colarinhos, bolsos e braguilha de calça de homem, que todos diziam ser mais difícil de costurar do que roupa de mulher. Escolher a linha da cor mais adequada, fazer a costura reta, sem repuxar o tecido, o ponto no tamanho exato. Eu não me queixo. Sei e sabia que estava sendo explorada e meio escravizada pelos patrões, mas aprendi a costurar,  e depois, o que os meus irmãos viveram antes de mim, foi muito pior. Além do mais, os patrões me prestigiavam. Quando tinha uma roupa especial,  do filho de um deles, por exemplo, pediam para eu fazer a costura mais difícil. Quando compraram a primeira máquina de fazer bainha fui colocada para estreá-la e eu me senti importante por isso.
Era ruim não poder trocar uma palavra com as colegas dos lados, era ruim que controlassem o número de idas ao sanitário e cronometrassem o tempo de permanência, mas eu podia cantar enquanto costurava. Um dia implicaram com a cantoria. Não me importei muito, não. Tinha uma coisa que eles não podiam controlar – meus pensamentos. Assim, criei uma estória, uma novela, e a cada período do dia, inventava mais um capítulo, acrescentava alguma cena extra. Lá, eu era a personagem principal e tinha tudo. Dinheiro, conforto, amor. Tudo o que eu quisesse. Enquanto costurava “vivia” numa linda casa a beira mar e era livre e muito amada. Na verdade, até os vinte anos devo ter passado umas duas ou três tardes no Gonzaga. Em ônibus de excursão.
Deixei a fábrica com pesar.
Da fábrica eu ia para a escola à noite e terminei o ginasial.
Era  um curso ginasial noturno por falta de  escola, de prédio. Na verdade ele funcionava à noite no mesmo prédio que durante o dia era usado para o primário. As carteiras eram baixas para o nosso tamanho e sentávamos em duplas.
Foi uma fase muito interessante em minha vida. A minha companheira de carteira, um ano mais nova do que eu era a melhor aluna da classe e extremamente inteligente. Durante o dia estudava piano em conservatório e às vezes me convidava  para a sua casa, numa quadra ao lado da escola, e tocava para mim. Lá, ela me apresentou Choppin, Beethoven, Lizst, entre outros. Às vezes íamos as duas, domingo de manhã, aos concertos do Teatro Municipal.
Depois do ginasial fiz um curso de desenho artístico e publicitário de dois anos, na Avenida Brigadeiro Luiz Antônio. Ia sozinha, à noite, até o Parque D. Pedro II, para pegar o ônibus para casa. Ao terminar esse curso, sem ter como aplicar esse conhecimento resolvi continuar os estudos.
Vez ou outra ia a um cinema na cidade, no fim de semana, sozinha. Minha mãe se queixava, tinha medo de eu andar só. E eu dizia a ela que se eu podia ir para a escola durante a semana, eu podia ir ao cinema no final de semana. O perigo era o mesmo. Ela se calava.
Depois da fábrica, estudei datilografia e trabalhei em escritórios, bancos, mas não era o que eu queria fazer a vida toda, continuei estudando.
Eu prestava muita atenção nas aulas por dois motivos. O primeiro era porque eu gostava e o segundo era porque eu quase não tinha tempo para estudar, e então, tentava guardar ao máximo o que era dado em aula.
A descoberta de outros mundos, que não o meu, me encantava.
Só recentemente me dei conta de que a minha poesia preferida era um soneto do Cruz e Souza,  “Só”. Ele fecha com “um frio sepulcral de desamparo”.

 

AMOR

Eu era uma mocinha jeitosa e os rapazes me deixavam absolutamente apavorada. Evitava ao máximo qualquer proximidade maior e quando sentia que ia pintar um clima, escapulia. Quando me entusiasmava por algum deles, fugia mais ainda. E foi no supletivo do colegial que tive que fazer os maiores esforços para evitá-los. Até que aos vinte anos, aquele rapaz de sorriso largo, com uma ginga peculiar, seqüela de paralisia infantil, se aproximou muito devagarzinho, se mostrou companheiro e dizia que gostava de conversar comigo. Chamava-me de anjo e assim,  sem pressa, eu fui aprendendo que havia pelo  menos um homem que não tinha nada a ver com meu pai. Era meigo e cheio de ternura  e eu tive a certeza de poder confiar nele, perdi o medo inicial que tive, e depois de quase dois anos de amizade iniciamos um namoro. Éramos o primeiro um para o outro. Agora eu sei que era namoro desde o começo, mas naquele tempo eu achava que não.  Nos casamos  quando eu estava no quarto ano da faculdade. Durou  muito pouco, antes do sexto ano estávamos separados. Mas eu faria tudo de novo.
De meus irmãos, só uma terminou o colegial. Eu fui me arranjando, com serviços que podiam se adaptar ao cursinho e me preparei para a faculdade de medicina. Da primeira vez que prestei exame vestibular consegui entrar na terceira opção – biologia na USP, curso noturno. Quando fui fazer a matrícula, informaram que a última aula terminava as 23:30h, no Butantã. Como o último ônibus para a minha casa, saía da Praça. Clóvis a meia noite, nem fiz a matrícula. Era um obstáculo normal e eu não fiquei muito frustrada por isso. Nessa época eu conseguia conviver bem com as frustrações. Mais tarde elas foram se somando e foi ficando mais difícil conviver com elas.

 

ESTUDO

Eu nunca entendi muito bem porque quis fazer algo tão fora dos meus padrões sociais, nem porque escolhi a faculdade de medicina. Até aprender que co dependentes, isto é, filhos de pais alcoólicos ou de lares desestruturados, buscam com muita frequência profissões de ajuda e que muitas vezes tentam também algo difícil, procuram se sobressair de alguma maneira. Mesmo que o preço seja alto.
Eu ainda posso sentir o abraço gostoso, o entusiasmo do namorado, quando soube que eu havia sido aprovada no vestibular. “Eu sabia que você ia conseguir”, me disse. A futura sogra também foi efusiva.
Lembro que os meus irmãos se dividiram entre a indiferença e o ataque. O mais novo dizia à minha mãe que não devia me deixar ir, não, eu me lembro muito bem da frase “menina de faculdade não presta”. O mais velho acho que não disse nada. A outra disse um apagado “que bom”. Eu não  me lembro se o meu pai falou alguma coisa. Só a minha irmã mais velha mostrou alegria. Minha mãe chorava.
Saí de casa para estudar em uma faculdade pública, mas em outra cidade, à uma hora de viagem e sem dinheiro.
Porque alguém precisa de tudo isso, para que alguém tem que atingir certos extremos eu só comecei a entender quase trinta anos depois, quando me pus a estudar alcoolismo. Aquela coisa que me impulsionava, que  eu não sabia definir, aquela necessidade de fazer algo a mais sempre me incomodou. Eu me sentia diferente dos outros. Não entendia a vida sem um objetivo. Mas não me orgulhava disso, apenas não entendia o porquê dessa diferença e pensava que havia algo errado comigo.
Tive muitas dificuldades e muita gente me ajudou a continuar os estudos. Fiquei devendo muito a muita gente, e isto foi sempre meio complicado para mim. Recebi ajuda do namorado, de professores, de colegas e do centro acadêmico. Isso era bom, mas ao mesmo tempo me deixava mal. Eu queria ser auto suficiente. Ficava um sentimento meio amargo. Os meus quase não me ajudaram, nem na proporção que poderiam. Apenas a irmã mais próxima em idade, deu uma força no começo. Penso que eles não acreditavam que eu pudesse conseguir ir até o fim. Nunca incentivaram o que consideravam loucura.
No primeiro semestre hospedei-me em casa de família que alugava quarto e depois numa pensão. Procurei trabalho o tempo todo e não consegui. Pedi em hospitais. Faria qualquer coisa, até limpeza. Eu precisava de um lugar para dormir e muito pouco dinheiro. Falei com muita gente e ao final do semestre, esgotada, voltei para São Paulo pronto para não mais retornar a faculdade. No início das férias de julho comecei a trabalhar como datilógrafa num escritório, por uma organização de serviço temporário e quando chegou o mês de agosto, continuei no trabalho. Mas uma semana depois recebi em casa alguns colegas do centro acadêmico. A professora de anatomia havia me mandado buscar. Dariam um jeito. Primeiro eu receberia uma quantia do departamento, de uma caixinha dos funcionários, e todos se empenhariam em me arrumar um emprego, um bico, para ganhar algum dinheiro. No segundo ano eu poderia conseguir monitoria no departamento. Um colega do segundo ano ofereceu os livros emprestados, outra colega ofereceu-me sua casa, graciosamente. E assim foi.
Fiz muitos tipos de trabalho enquanto estudava. Revenda de produtos de beleza, datilografia de estêncil, apostilas, representação de laboratório farmacêutico, participei do censo de setenta, entre outros. Ofereceram aula em cursinhos, mas eu continuava tímida e era insegura demais para isso.

 

AFASTAMENTO

Como estudava em outra cidade e tinha que trabalhar sobrava muito pouco tempo livre e é claro que eu tinha que dividir com o namorado, a partir do quarto ano, marido. Os meus nunca entenderam. Reclamavam da minha ausência, não entendiam que eu tinha aceitado sacrificar uma parte de minha vida por um objetivo. Permaneceram distantes, mesmo quando eu precisava deles. Creio que eu mesma não quisesse me mostrar frágil para eles. Eu os estava contrariando e não daria o braço a torcer de que eles tinham razão, que não era fácil continuar. Talvez tivesse medo de que eles me convencessem a parar, a voltar para aquela mesmice da qual eu queria fugir. Eu não sei,  são só cogitações, mais de trinta anos depois.
Penso que eles demoraram muito para ficar sabendo de minha separação do marido, antes do final do curso. Eles quase não me procuravam. Estávamos muito distanciados.
No ano em que me formei recebi uma carta de meu pai lamentando o fato de eu estar tão distante e que preferia que eu tivesse me tornado uma empregada doméstica e que continuasse no seio da família.
Eu me lembro de duas coisas que meu pai me deu nos seis anos de faculdade. Uma vez, deu-me uma nota em dinheiro. Coisa pequena que  não sei mais calcular. Da outra vez, deu-me um estetoscópio.
Ele ganhava pouco sim, mas se quisesse teria me dado uma pequena quantia por mês. Para um lanche, pelo menos. Ele nunca ofereceu e eu, pelos antecedentes, jamais pediria a ele, mesmo.
Agora entendo como era a minha família: aglomerada, grudada. O mito que havia era – ninguém sai. Meu irmão do meio, aos 20 anos, arrumou o emprego dos seus sonhos, no escritório de uma empresa aérea,  a 50 km de casa. Minha mãe chorou até que ele voltasse para casa e para a tipografia escura e fechada. O mais velho casou-se e foi morar duas casas abaixo, na mesma rua. Quando mudamos para São Paulo, ele veio e alugou uma casa a cem metros da nossa, quando mudamos de bairro ele foi junto. Minha irmã mais velha casou-se com um sitiante e não agüentou seis meses. Voltou e trouxe meu cunhado  para a  cidade grande e o desemprego. Durante quatro anos ele foi um zumbi perdido na cidade. Fizeram casa em nosso quintal. O irmão mais novo casou-se e fez um apartamento para ele na nossa casa. A outra só saiu de casa  depois da morte de minha mãe.
Acho que ninguém entendeu  porque eu, a caçula,  sempre tão obediente e boazinha tive o atrevimento de sair. Penso que tenha sido para eles  uma traição imperdoável.
Eles nunca chegaram perto o suficiente para entender os meus motivos. E até hoje o meu irmão mais velho continua com o discurso de que eu os deixei, abandonei. Numa sessão de terapia familiar recentemente, o meu irmão do meio disse que não gosta de mim como sou agora, gostava de mim como eu era antes de sair de casa, quando eu era, em suas palavras – meiga, boazinha, apagadinha. Isto foi bom porque eu já não me lembrava se era verdade ou fantasia minha essa meu lado gentil. Era só uma vaga lembrança de tempos distantes.
Às vezes penso que uma das razões dessa minha diferenciação foi chamar a atenção deles, desejar  me sentir amada por eles e que não deu certo. À medida que me diferenciei me distanciei mais.

 

O SONHO E A REALIDADE

Quando me formei estava muito triste com tudo. Havia me separado do marido, minha mãe havia falecido e eu iniciava uma vida de médica, pobre, sem dinheiro para bancar um consultório. As prestações do apartamento do BNH estavam com um atraso de seis meses. Tive que me sujeitar a subempregos. Trabalhava demais para ganhar pouco e era submetida a uma série de restrições que não imaginara. O número de exames subsidiários, a quantidade de consultas por turno, tudo muito controlado. Andava em ônibus pela cidade e perdia muito tempo  entre um trabalho e outro. E via resultados muito pobres do meu trabalho. Quando eu costurava uma camisa, eu podia vê-la pronta e isso me dava prazer. No escritório, caprichava na datilografia. Agora, não. A parte que não dependia de minha ação era muito complicada pela administração pública, e muito importante no processo todo. O resultado não dependia do meu trabalho, e com uma frequência grande demais era muito ruim.
Os pacientes quase nunca tinham dinheiro para o tratamento proposto, outras vezes chegavam a um estado muito adiantado de evolução da doença, quando não havia mais o que fazer, ou não conseguiam fazer os exames subsidiários solicitados. Eu via o desalento em seus olhos, ao receberem a receita e entendia que de nada adiantara todo o trabalho até ali. Isto quando conseguia ir até o fim no penoso ciclo dos exames para diagnóstico e retorno.
A cidade é muito grande e os laboratórios todos distantes. Muitos moravam muito longe dos postos de atendimento. A demanda grande demais, o agendamento para dois, três ou mais meses depois, para a doença de hoje. Outras vezes eu não conseguia uma vaga para a necessária internação. E o paciente sofrendo nestas idas e vindas.  Era um trabalho penoso e vão.
Foi um começo doloroso. Eu não esperava por isso, a minha frustração começou aí.

 

PERDAS

De meados de 73 até início de 80, perdi  as pessoas mais importantes em minha vida. Minha mãe, a irmã mais velha, meu pai e o ex-marido. Foram anos muito pesados.
Prestei concurso para empregos no setor público, onde todos diziam ser melhor. Ganhei dois empregos de meio período, porém foi exatamente quando o sistema público de saúde iniciava um movimento para baixo em uma derrocada sem precedente.
No começo ainda podia fazer alguma coisa pelo paciente, mas com o tempo foi ficando cada vez mais difícil, mais travado, mais limitado.  Fiz muitos cursos, participei de muitos eventos. Eu queria ver uma saída. Mas não havia. O sistema não permitia. Ao contrário, fechava-se progressivamente.
Observei que os técnicos ficavam à mercê do humor dos gabinetes e nunca eram ouvidos. As ordens vinham inesperadamente “lá de cima” e todos tínhamos  que nos adaptar. Muitas vezes em nossas conversas de “peões” maquinávamos soluções melhores, mais criativas, mas sabíamos que não interessavam a ninguém, que ninguém nos ouviria. As chefias quase nunca eram substituídas por critérios técnicos.
Presenciei muita injustiça, muita arbitrariedade.
Foi com tristeza que vi médicos, alguns excelentes, ao concluírem os quatro anos de residência médica, o que perfazia dez anos de dedicação exclusiva e muito estudo, desistirem da carreira e  partirem para o comércio ou outras atividades. Outros como eu, inconformados, se punham a estudar e se especializar, mas se não tinham amigos ou parentes influentes, o curso, a especialização, não fazia sentido, era só um papel a mais em sua gaveta, dinheiro gasto e horas perdidas.
Continuavam atendendo pacientes em postos de saúde mal administrados e sofrendo junto com os pacientes.
Abri consultório com um colega e tentei por algum tempo. Era muito dispendioso e o retorno demorado. Um dia ele cansou-se e foi embora para o exterior e eu tive que fechar.  Anos depois, já na década de 90, abri novo consultório, porem foi exatamente quando os convênios tomaram conta de tudo e eu recebia cerca de dez por cento do valor normal de uma consulta que era paga com três meses de atraso. Mas o valor das despesas do consultório era normal. Desisti mais uma vez, quando notei que até professores eminentes se sujeitavam aos convênios. Dediquei-me integralmente ao serviço público.
Uma vez numa reunião de médicos, falei sobre o sofrimento dos pacientes de modo apaixonado, e me lembro de um professor que me olhou atentamente e disse aos outra “-ela sofre junto com o doente”. E era isso mesmo, eu sofria junto. Eu não lhe disse que sofria junto por um motivo muito simples. Havia sempre um parente meu, um amigo meu, em alguma fila de algum serviço público e eu não os podia ajudar, muitas vezes. E eu via em cada paciente pobre a minha frente, os meus, sofridos e desesperançados. Eu sofria junto, sim. Eu ainda sofro junto.
Acompanhei todos os lances da morte de minha irmã mais velha. Eu a vi em prontos socorros e em internações onde não havia leitos em enfermarias e ela muito mal, teve que permanecer muitos dias numa maca de corredor de pronto socorro. Ela sofria de insônia e ali, no corredor, com toda aquela luz e barulho, ela ficava extremamente agitada. E eu não podia fazer nada.
Eu era recém formada e insegura e estávamos em crise àquela época por conta da epidemia de meningite. A médica que cuidava dela, mal falava comigo, não me dava atenção. Ela ficou internada alguns dias e voltou para casa. Fui dormir em sua casa para a atender e me lembro do seu sofrimento. Do nosso sofrimento.
Por fim, internou-se num hospital por um mês  e faleceu aos 42 anos de idade, deixando um filho de nove.
Há o sofrimento normal de qualquer pessoa pela doença e pela morte de um ser querido. Mas, quando o dinheiro é pouco demais há um sofrimento extra. E me parece que as pessoas que não tem essas limitações não percebem esse fato. Parece que para os pobres a dor é subestimada. Pouca gente imagina coisas simples como ficar numa avenida, num ponto de ônibus, meia hora ou mais, viajar horas, em pé num ônibus lotado, ou sair de madrugada, com muita dor ou febre, e ter que ir até o consultório e muitas vezes nem ser atendido. Ou ser atendido e não ter condições de comprar o medicamento.
E se a consulta sempre tem que ser agendada, a doença nunca é.
Por conta de todos os entraves a consulta normal, muitos pacientes se recusam a buscar ajuda até que não dá mais. E aí quase sempre não dá mesmo. O médico já é desnecessário. E este muitas vezes ainda se irrita com o paciente, por este ter  demorado tanto a procurar socorro. Outros pacientes passam por serviços de emergência e são atendidos ligeiramente, medicados com sintomáticos e depois não conseguem prosseguir no tratamento necessário.

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